Toda escrita é um ato político (de amor)

Toda escrita é um ato político (de amor)

Juliana Valentim*

01 de abril de 2021 | 04h15

Juliana Valentim. FOTO: DIVULGAÇÃO

Sempre que me perguntam quando comecei a escrever, tenho a nítida sensação de que foi em outra existência. Sinto que já cheguei a essa vida carregando comigo o amor pelas palavras, mesmo antes de aprender a pronunciar um nome sequer.

Gosto da ideia de que os textos sempre chegam até nós no momento certo, quando estamos preparados. Vinícius de Moraes, por exemplo, fui conhecer profundamente no começo da juventude, quando tudo era paixão. Na adolescência, quem me acompanhou de perto foi Clarice Lispector, com toda a sua intensidade. Depois, já na vida adulta, me apaixonei por Rubem Alves e tantos outros.

Penso no que cada um desses escritores teve que enfrentar para viver da escrita. Vários deles nunca conseguiram fazer dela, efetivamente, o seu ganha pão. É o caso de Cora Coralina, que apesar de escrever desde criança, publicou seu primeiro livro aos 75 anos. Quanta coragem há nessas trajetórias!

Aliás, se eu puder escolher uma palavra favorita no dicionário seria esta: coragem! Sem uma boa dose de coragem, a gente não vai a lugar algum. É isso que eu trago nos meus textos, tanto nos poemas quanto nas narrativas mais longas, como o romance. Escrevo sobre a coragem de arriscar, de buscar aquilo que faz o coração vibrar, ainda que o caminho seja tortuoso.

O que realmente me encanta é falar aos jovens, especialmente às meninas, que já nascem com a alma tolhida. A gente pode ser o que a gente quiser e isso não é frase feita de jornal. Isso é sororidade, são mulheres ajudando mulheres, empurrando sempre para frente. Escrever é lutar!

Tenho a mais plena convicção de que toda escrita é um ato político. Quando falo em política, não me refiro necessariamente ao duelo entre partidos, mas ao momento social, cultural e econômico de quem escreve. É a história que viaja por gerações. Não fosse assim, não teríamos por que ler Platão, Nietzsche, Séneca. Nós os lemos para entender como chegamos até aqui.

Escritores defendem suas causas desde sempre. E precisam fazê-lo, pois não há palavra no mundo sem um significado verdadeiro. Não há palavra que não carregue em si uma bagagem. Quando não respeitamos isso, o texto morre. E ninguém gosta de ler um texto que já morreu. Queremos palavras que vivem, mesmo quando seus autores já se foram.

Então, quando um texto chegar até nós, que nos lembremos: para que aquelas linhas fossem escritas, alguém, em algum momento, travou uma batalha. E já que somos a voz da nossa época, que seja uma voz alta e clara. E já que nossos textos reverberarão, sem medo e sem pudor, que cheguem às novas gerações como atos políticos (de amor).

*Juliana Valentim é jornalista, escritora, palestrante, consultora de escrita criativa e gerencia o perfil no Instagram @palavrasquedancam

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