Tocata e fuga sem contraponto

Adriano Alves-Marreiros*

22 Janeiro 2019 | 06h00

Falemos um pouco sobre a falsa fundamentação em sentenças e debates…

Certos dramas são essencialmente barrocos. Nada melhor que mencionar as afinadas melodias barrocas para criticar os desafinos e ruídos que podem ocorrer em sentenças e debates. Não, não vamos falar deles todos, não haveria espaço. Não vamos nem analisar os 38 estratagemas que Schopenhauer denuncia em “Como vencer um debate sem precisar ter razão”, por mais que tenhamos presenciado cada um deles e , por vezes, chegado à conclusão que Arthur poderia ter ido mais além: se lesse sentenças e assistisse a debates no Brasil…

Vamos falar, de umas poucas fintas menos elaboradas e que, se não estiverem dentro daqueles, decerto incorporam seu espírito, embora talvez não estejam à altura de grandes embusteiros do passado: como superar os sofistas, ou Rousseau (fidalgo, castelão, suíço e vagabundo, como disse o Pessoa) ou Karl Marx (autor de influentes obras de ficção que geram crentes até hoje)?

Todas evitam enfrentar qualquer contraponto. E a primeira delas sempre nos pareceu muito evidente, mas bajuladores e a turma dos panos quentes sempre buscou esconder ou minimizar: se você lança alguns argumentos extremamente fortes e embasados, eles simplesmente fingem que eles não existiram e soltam palavras que formam frases, que preenchem linhas que transbordam em parágrafos mas em nada conseguem superar o que fora argumentado. O papel tem que aceitar isso tudo, que poderia ele fazer? Mas o que impressiona é que haja seres pensantes que aceitem sem discutir a evidente manobra do drible: em que apenas um dos protagonistas se presta ao nobre esporte bretão. Pra que atacar o indestrutível se todos aceitarão o seu desbordo fingindo que seus argumentos prescindem de enfrentar o principal? Se a maioria não vai te exigir isso (até pra poder fazer o mesmo quando precisar)?

A segunda delas é menos perceptível, é quando eles resolvem “resumir” o que você falou, e esta manobra de prestidigitação é mais fácil de notar quando alguém exagera no laconismo (aliás, seria justo chamar de lacônico o modo de falar dos guerreiros espartanos que diziam muito em uma frase? Não será mais lacônico fazer como eles que falam muito, como mostramos acima, para dizerem nada ou quase nada?). Quando percebem que seu texto ou fala é no todo difícil de refutar, fazem um resumo mais ou menos longo tocando apenas nos pontos menos relevantes, sem importância ou sem os detalhes cruciais que foram usados. Depois disso, nem usam a famosa falácia do espantalho (ah, muitas vezes usam, sim!), e fazem uma nova argumentação que parece bem melhor que aquele resumo deliberadamente mal feito recheada de exibicionismo, malabarismo e frases de efeito, no melhor estilo Banal… Isso, aliás, pode ajudar muito no que expusemos no parágrafo acima. Essa pirotecnia via de regra lotada de juridiquês e citações excessivas costuma impressionar bastante. Parece aquele velho truque Jedi (que não funciona com todas as mentes).

Finalmente temos duas variações sobre um mesmo tema, só pra prosseguir em metáforas melódicas. É muito eficaz citar ementas ocultando o que diz o inteiro teor e aplicar soluções de casos excepcionais a casos gerais e vice-versa. Esses aí contam com a preguiça e com o comodismo. Ora, para quê buscar a essência da coisa se a aparência já resolve o meu problema? Aliás, para que buscar problema (é, conta com a covardia também…)? Isso funciona muito bem porque determinadas frases e parágrafos, tiradas de seu contexto, podem servir para qualquer coisa… É tão bom ter umas chaves mestras, ainda que elas não sirvam para abrir as portas da realidade… E esses casos ainda podem servir para camuflar e reforçar os truques dos dois parágrafos anteriores, como a criptografia em camadas: só que bem fácil de decriptografar para quem realmente quiser entender… Para fazer justiça, temos que lembrar que essa das ementas é mais comum aos usuários que aos “fornecedores” das decisões: há quem diga que muitas vezes a ementa é feita por assessores e estagiários…

É, realmente a Bíblia diz que “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”, mas isso só funciona para quem quiser conhecê-la, e isso, seja você religioso ou não, pode ser bastante incômodo e exigir persistência e coragem que já não são tão comuns. Quando quem deve defendê-la não quer sequer conhecê-la e até finge não conseguir percebê-la: os libertos podem ser os criminosos e outros indignos…

*Adriano Alves-Marreiros, promotor de Justiça Militar, escritor e membro do MP Pró-Sociedade

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