‘Toc toc…’ Tem alguém do outro lado da câmera? As novas questões do ensino jurídico telepresencial

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‘Toc toc…’ Tem alguém do outro lado da câmera? As novas questões do ensino jurídico telepresencial

Fabiano Zavanella*

02 de agosto de 2020 | 07h00

Fabiano Zavanella. FOTO: DIVULGAÇÃO

Essa é uma das frases recorrentes ditas pelos docentes ao longo das atividades acadêmicas desenvolvidas há ‘apenas’ cinco meses, desde que a pandemia nos tomou a liberdade e impôs um modelo improvisado, e ainda em adaptação, para ministrarmos conteúdo.

Nesse cenário, o desafio de dar continuidade ao ensino jurídico em nosso tempo é grande, uma vez que as universidades tiveram de repensar o modelo de transmissão de conteúdo e de informações durante a pandemia, considerando, portanto, que as relações pessoais entre discentes e docentes foram impactadas e o modo como a interação social geralmente acontecia foi modificado.

Para a continuação do processo de aprendizagem durante o isolamento social, inúmeras universidades proporcionaram aos alunos e aos professores o acesso a plataformas virtuais de ensino, para transmissão ao vivo das aulas, com possibilidade de comunicação em tempo real e em qualquer lugar entre os atores da relação de ensino.

A pandemia evidenciou os aspectos positivos e negativos, tanto do processo de aprendizagem, como da relação entre professor e aluno. Há de se ressaltar alguns dos principais desafios impostos pelo chamado ‘novo normal’.

No ensino jurídico superior, quer seja graduação, extensão ou pós-graduação, é louvável o esforço de adaptação dos professores e, também, dos alunos e de todo aparato estrutural de algumas faculdades para manter padrões adequados de qualidade, interação e, sobretudo, apreensão dos conteúdos e programas das respectivas disciplinas.

O exercício não é simples porque, diferente de outras experiências anteriores nas quais, voluntariamente, participamos de conteúdos gravados e/ou aulas on-line, ainda tínhamos um bom pedaço do tempo guardado e destinado às atividades presenciais, a troca de experiências, ao papo nos corredores, ao café na sala dos professores, às quebras de rotinas para virar a chave entre o fim de uma atividade e início da outra.

Sem falar no improviso de muitos lares para adaptar as rotinas e até mesmo a estrutura à necessidade de uma conexão minimamente estável e, ainda, algum canto que ofereça um pouco de silêncio e permita um grau adequado de concentração, o que não é regra. É necessário, também, lembrar que há outros fatores muito impactantes relacionados ao emocional: medo da doença, da perda do emprego, a incerteza dos rumos, as dificuldades do isolamento.

Sempre gostei muito de memorizar os nomes dos alunos e interagir ao longo da aula. Impaciente como sou, caminhar pela sala é um mix de terapia e atividade física e agora faço isso, se muito, pelo chat ou quem sabe quando alguém se sente à vontade para deixar a câmera aberta e faz alguma pergunta pelo microfone. ‘Ufa, vocês estão aí!’.

Geralmente ficamos, em média, quatro horas na frente da tela sentados na cadeira adaptada agravando as agruras do distanciamento social, pois sala de aula é troca de experiências, de dores, dilemas e conhecimento.

Convivemos com a infodemia em considerável potencialização, além da maior exposição à conectividade que não somente para nossas aulas na condição de professor mas no acumulado de tarefas que nos deparamos nesse cenário atual que praticamente nos leva a uma excessiva exposição às telas.

E por que fazer tanto? Porque somos instados a produzir mais nesse regime de excepcionalidade pelo nosso próprio subconsciente, já que além daquelas sensações de temor acima indicadas ainda temos uma autocrítica muito forte que nos faz assim pensar: puxa, mas estou em casa, confinado, então nada mais necessário do que produzir muito mais do que fazia, afinal não encaro o trânsito e nem outros dissabores do dia a dia.

Será mesmo? Quando e como desconectaremos? Definitivamente não é bem assim o teletrabalho ou trabalho remoto que pregamos, mas chegaremos lá. É tempo de redesenharmos esses padrões.

De toda forma, muito mais do que ressaltar os dilemas e temores ou até mesmo as dificuldades enfrentadas e de tanta gente que ficou pelo caminho e não conseguiu continuar os estudos por necessidade de priorizar outras situações que se agravaram pela pandemia, ou ainda pela solidariedade as muitas professoras e professores que tiveram seus contratos rescindidos ao longo dos últimos meses, há muito que agradecer.

Agradecer pela vida, sobretudo, agradecer pela oportunidade de lecionar, de discutir temas sensíveis em sala virtual de aula com liberdade de pensamento, agradecer pela compreensão da família e dos sócios, pela dedicação dos alunos, pelo esforço das instituições de ensino e dos coordenadores, pelo exemplo de tantos professores mais experientes que não se amedrontaram diante dessa avalanche de tecnologia e de emoções e se reinventaram talvez mesmo sem precisar.

Por fim, o desafio está posto a cada um de nós: encontrar um método de ensino adequado que possibilite ao professor construir um modelo que esteja mais adaptado à transmissão de conteúdo e informação durante a vigência das políticas de distanciamento social e que, também, preserve, dentro do possível, suas características e a essência dessa dádiva que é a docência.

*Fabiano Zavanella é doutorando em Direito pela USP e mestre em Direito pela PUC/SP, com MBA em Direito Empresarial pela FGV/SP. Pesquisador do GETRAB-USP, sócio do Rocha, Calderon e Advogados Associados e diretor executivo do Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas em Ciências Políticas e Jurídicas (IPOJUR). Professor nos cursos de pós-graduação e extensão em Direito Empresarial do IBMEC, da Escola Paulista de Direito (EPD) e do Complexo Damásio Educacional em São Paulo, entre outros

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