Títulos Verdes: a nova tendência no mercado brasileiro

Maria Olívia Hannickel e Manoela Ribeiro*

19 de novembro de 2019 | 07h00

O Acordo de Paris (2015), firmado por 195 países-membro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), estabeleceu metas climáticas ambiciosas, com o principal objetivo de manter a temperatura média global abaixo de 2° C. Este acordo reflete o compromisso com o meio ambiente e a sustentabilidade, no que se refere a adaptação dos países em conduzir os fluxos financeiros em direção às iniciativas de baixa geração de carbono e resilientes ao clima.

O Acordo prevê um volume de recursos anuais mínimos de US$ 100 bilhões que devem ser mobilizados pelos países desenvolvidos até 2025 para integrar o financiamento climático. Apesar disso, algumas organizações como a Agência Internacional de Energia, o Banco Mundial e o World Resource Institute (WRI) avaliam que os investimentos necessários podem chegar a US$ 5 trilhões anuais. Diante do exposto, os Título Verdes, traduzido do inglês Green Bonds, sobressaem-se, então, como uma importante alternativa para suprir essa lacuna e mobilizar investimentos para viabilizar projetos sustentáveis.

Os Green Bonds são Títulos de Renda Fixa que têm como finalidade financiar projetos novos ou já existentes de longo prazo, que gerem benefícios no âmbito climático e/ou ambiental.  Desta forma, se torna uma via relevante para fomentar iniciativas e tecnologias em diversos setores e organizações. No Brasil, os instrumentos financeiros de Renda Fixa podem ser enquadrados na categoria de Títulos Verdes, caso respeitem os requisitos do Green Bonds Principles.

Os Títulos Verdes se diferenciam dos convencionais uma vez que o emissor deve obter uma avaliação externa das credenciais sustentáveis através da transparência nos processos e da documentação sobre o uso de recursos em Projetos Verdes.

As primeiras emissões desses títulos ocorreram em 2007 e 2008 pelo Banco Europeu de Investimento e pelo Banco Mundial, respectivamente. Do ponto de vista do emissor, os Títulos Verdes podem ampliar e diversificar a base de investimentos, e, consequentemente, atrair mais investidores. Adicionalmente, o emissor pode obter uma reputação sustentável agregando valor ao seu negócio.

O Brasil é reconhecido por sua abundância de recursos naturais, assim, a capacidade eólica e solar do país, por exemplo, apresentam grande potencial para a emissão de Títulos Verdes. Ademais, a demanda por infraestrutura cria uma oportunidade para o país desenvolver projetos sustentáveis em diferentes segmentos, impulsionando um crescimento econômico alinhado com as diretrizes internacionais de preservação ambiental, como as tratadas no Acordo de Paris.

Inicialmente apenas os bancos de desenvolvimento multilaterais emitiam este tipo de título, entretanto, a partir de 2012, empresas, municípios, agências de crédito à exportação e bancos comerciais passaram a atuar nesse mercado. Hoje existem fundos exclusivos de Títulos Verdes, porém, as emissões não são suficientes para suprir a demanda que requer papéis líquidos, em diferentes moedas e com vencimentos distintos.

De acordo com a Climate Bonds Initiative (CBI), no ano passado a emissão de Títulos Verdes na América Latina e Caribe, teve uma queda devido as baixas emissões no Brasil. No entanto, entre os países emergentes, o Brasil possui 3 dos 10 maiores emissores de Títulos Verdes (CBI, 2018): Suzano Papel e Celulose (US$ 1,195 bilhões), BNDES (US$ 1 bilhão) e Fibria (US$ 700 milhões).

Em novembro de 2018, a B3 passou a identificar os Títulos Verdes dando maior visibilidade às companhias com agenda sustentável, o que pode estimular a emissão de Green Bonds no mercado brasileiro que, segundo a Climate Bonds Initiative, já emitiu cerca de US$ 4,1 bilhões até 2018.

Diante do atual panorama, em que sanções e represálias aos países e instituições motivadas pelo descumprimento de preceitos ambientais são uma realidade, a responsabilidade ambiental é pré-requisito para bons negócios. Desse modo, há uma grande expectativa que o crescimento do mercado de Títulos Verdes auxilie a convergência entre o crescimento econômico e a preservação ambiental visando um modelo de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

*Maria Olívia Hannickel e Manoela Ribeiro, consultoras de governo e setor público da EY

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