Tire o espartilho do código de governança das empresas familiares 

Tire o espartilho do código de governança das empresas familiares 

Maxime Carmignac*

03 de dezembro de 2020 | 05h30

Maxime Carmignac. FOTO: DIVULGAÇÃO

As empresas com grandes participações familiares são conhecidas por discussões sobre a propriedade e o controle, bem como sobre o nepotismo e a sucessão. Como resultado, as classificações dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) mostram baixas , desencorajando aqueles que procuram um investimento em crescimento responsável.

No entanto, uma análise mais aprofundada permite verificar que existem boas razões para investir nestas empresas usando uma abordagem seletiva.

Todos conhecemos bem as tensões existentes nas empresas familiares porque as histórias são interessantes. As discussões familiares sobre dinheiro são fascinantes, basta olhar para a popularidade da série televisiva Succession inspirada na família Murdoch. Contudo, isso ignora o fato de dezenas de milhares de empresas com grandes participações familiares ou dos fundadores continuarem a gerar retornos e valor ano após ano, durante décadas. Atualmente, representam 70% do PIB mundial e 50% a 80% dos postos de trabalho em muitos países1.

Contrariamente à ficção televisiva, os fundadores das empresas não são apostadores, são criadores. Uma empresa familiar nasce porque alguém tem uma visão aliada a uma determinação. Essas empresas prosperam uma vez que têm um objetivo mais amplo do que o crescimento dos resultados, o Santo Graal das empresas não familiares. Muitas vezes, é este objetivo que promove a inovação, o desejo de fazer o que é certo, em vez de fazer as coisas corretamente. Citando o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry “Não herdamos a Terra dos nossos pais, mas pegamos emprestado de nossos filhos”. O mesmo é válido para as empresas familiares.

As empresas familiares podem ser mais confortáveis do que as empresas não familiares na tomada de decisões que não se traduzem em resultados imediatos. De fato, os CEOs contratados têm um tempo limitado para provarem o seu valor e, muitas vezes, sofrem pressão dos investidores a curto prazo para apresentarem melhorias nos resultados trimestrais. Isto significa que não poderiam, por exemplo, adotar uma abordagem semelhante ao Hasso Plattner, um dos fundadores da empresa europeia líder em tecnologia, a SAP. Por meio de uma doação de fundos, Plattner fundou em 2003 o Instituto Hasso Plattner de engenharia digital na Universidade de Potsdam e o seu instituto de design congênere em Stanford. O próprio assegurou um local seguro para os engenheiros conceberem uma base de dados transacional revolucionária. O instituto transformou-a no software SAP HANA com um tempo de resposta quase zero e entregou a investigação à SAP. A decisão tomada pela SAP teria sido impossível para um Conselho de Administração convencional – muito drástica e muito incerta. No entanto, Plattner tinha a liberdade de pensar mais além e, atualmente, a HANA SAP é a plataforma líder no mercado de software utilizada por mais de 12.000 clientes.

Apostar no longo prazo não envolve um endividamento excessivo. Na realidade, as empresas familiares tendem a ser menos alavancadas do que as outras empresas. A base de dados “Family 500” da Carmignac acompanha empresas globais em que no mínimo 10% do capital é controlado pela família, pelos fundadores, por fundações ou fundos. Essa base de dados releva que, em média, o seu nível relativo de endividamento é aproximadamente três vezes inferior ao das empresas não familiares2. Mas quando se trata de empresas familiares, não é válido um princípio de universalidade. A seletividade é fundamental.

Quando perguntei ao investidor de renome, Terry Smith, qual a sua opinião sobre investir em empresas familiares, ele me respondeu com este poema de Longfellow: “Havia uma menininha Quando era boa, era muito boa mesmo, mas quando era má, era terrível”.

O universo de empresas familiares passíveis de investimento é vasto e diversificado. Encontrar as “joias” requer uma abordagem meticulosa.

A geografia é importante. Quando se trata de desempenho, nos últimos 15 anos, as empresas familiares da União Europeia e dos EUA superaram o desempenho das empresas não familiares em +50% e +40%, nas respetivas áreas geográficas, ao passo que nos mercados emergentes as empresas familiares registaram um desempenho inferior3. A base de dados “Family 500” da Carmignac revela que as empresas familiares dos EUA são as mais desejáveis.

O tamanho marca a diferença. Enquanto todas as categorias de empresas familiares por capitalização superaram o desempenho das empresas não familiares, as de mega capitalização4 registaram o melhor desempenho dos últimos 15 anos – apresentando um crescimento quase 3 vezes maior. O investimento em empresas familiares não deve restringir-se às companhias de pequena e média capitalização, existem claramente alguns campeões familiares de dimensão maior.

A geração da família também conta. As empresas familiares de primeira e segunda geração tendem a sair-se bem. A partir da quinta geração, o desempenho é mais variável à medida que a mentalidade única da empresa familiar fica muito diluída.

A percentagem de direitos de voto detidos pela família deve igualmente ser considerada no que se refere às empresas familiares cotadas em bolsa: quando muito baixo (80%), os acionistas minoritários são ignorados. Os administradores não executivos precisam de meios para defender os acionistas não familiares. Os investidores devem observar de que forma os executivos são remunerados, sobretudo se estiverem ligados à família, e monitorizar o comportamento empresarial e a qualidade das práticas contabilísticas.

Uma boa governança não pode ser avaliada colocando vistos numa lista de requisitos. Impõe-se uma abordagem ativa que combina o conhecimento da realidade humana e o research independente. Com isto, os investidores podem reunir a informação necessária para identificar uma fórmula empresarial que criará valor a longo prazo para os investidores, contribuindo para o bem maior.

*Maxime Carmignac, diretora executiva da Carmignac UK

1 Fonte: UBS, junho de 2019

2 rácio de Dívida Líquida/EBITDA de 0,4x face a 1,1x

3 Classificações médias de governo societário do MSCI por região

4 50 mil milhões de USD

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