The day after

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Ricardo Viveiros*

08 de setembro de 2021 | 10h00

Ricardo Viveiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Desde antes das eleições presidenciais de 2018, escrevo que o Brasil se dividiu em dois grupos, os “contra” e os “a favor”. Persistem também os “muito pelo contrário”, aquela turma “em cima do muro”. O que motivou esse racha na população brasileira, ideologia? Não. Desapontamento, amargura, insatisfação.

Povo sem esperança, é povo sem futuro. Estamos matando a esperança desde 1500, eleições após eleições, governo após governo, com algumas honrosas exceções. Sem cultura e educação, postergadas pelos manipuladores da sociedade, acreditamos em “salvadores da Pátria”. Eles, como fantasmas, não existem. Embora por décadas temos acreditado em teorias da conspiração. E Bolsonaro se aproveita disso, quando profetiza suas alternativas: “Estar preso, ser morto ou a vitória.”

Como Jânio e Collor, para dar apenas dois exemplos, os brasileiros viram em Bolsonaro mais um “salvador da Pátria”. Um capitão que, sendo paraquedista e Messias, viria do céu com os dedos em riste como armas para livrar a todos do perigo comunista, colocando fim na corrupção e implantando, como prometido, gestão ética, competente e defensora de valores: “Brasil Acima de tudo e Deus acima de todos”. Pergunte a um dos que ainda estão com Bolsonaro, o que ele fez de bom para o Brasil? Resposta: “Livrou o Brasil da esquerda”.

Muitas foram 58 as promessas de campanha de Bolsonaro. Com mais de 50% de mandato, apenas 14 foram cumpridas. Outras 13 estão em curso, 31 foram esquecidas. O que se destaca, são as falas que empolgaram os eleitores, como fazer uma política nova, sem vícios do passado, sem indicações de apadrinhados, apenas com técnicos nos cargos públicos, sem conchavos, sem roubalheira. E o que vemos é o velho Centrão mandando no governo federal, e todas as práticas antes criticadas novamente acontecendo – inclusive corrupção. Ou seja, como na irônica frase “Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”, quando da invasão de Napoleão Bonaparte em Portugal, no início do século 19.

A verdade é que Bolsonaro sempre foi apenas um político, não um gestor. Nunca exerceu um cargo executivo. Deputado do chamado “baixo clero”, eleito por militares do Rio de Janeiro para defender seus interesses, trocou de partido por inúmeras vezes em quase 30 anos na carreira parlamentar, deixando clara a ausência de propostas. Há mais de dois anos no poder nacional, Bolsonaro faz apenas mais do mesmo: campanha política. Porque é o que sabe fazer.

Utilizou as mídias sociais para propagar um inflamado discurso não apenas contra a esquerda, mas rotulando de “comunista” qualquer pessoa que discorde dele; apoderou-se dos símbolos nacionais, em especial as cores verde e amarelo; criou palavras de ordem no melhor estilo autoritário; acabou com o ministério da Cultura, afinal povo culto rejeita seu estilo; ataca e ameaça os demais poderes; promove triunfais desfiles de motos; busca, por falta de argumentos, combater de modo preconceituoso e discriminatório os seus adversários; cria e divulga fakes news; pratica violência contra a imprensa, que cumpre o papel de mostrar seus erros; dissemina ódio e divide o País cada vez mais.

Mesmo tendo acreditado lá atrás, o povo não é bobo. Bolsonaro vem caindo nas pesquisas de popularidade, de avaliação do seu (des)governo. Assim, tem buscado criar factóides para jogar fumaça em alguns atos que, pela gravidade, estão sendo investigados, julgados e deverão ser punidos. A cada erro denunciado, cria um fato novo, inventa alguma coisa. Mostra-se um ilusório marqueteiro político de si mesmo. Tenta demonstrar força para enfrentar sua crescente fragilidade, o claro descontentamento da população.

Sob investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), agora voltou suas armas contra o Judiciário, estrategicamente contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, que irá presidir o TSE no ano que vem. E tem a pandemia e a CPI dela; a economia parada; a inflação crescente com a carne, a gasolina e o gás nas alturas; as crises hídrica e energética; as queimadas e desmatamentos; a fuga de apoio de vários setores empresariais; a popularidade despencando e, como já dito, também enfrenta queda nas pesquisas eleitorais para 2022. Conclamar o povo para ir armado às ruas no 7 de setembro, apropriando-se do Dia da Pátria, foi estratégia para criar um clima que lhe possa ajudar na transformação do péssimo cenário em que já não brilha, porque os holofotes sobre o palco da mentira queimaram.

Foi muito pesado este Dia da Pátria. O feriado prolongado começou com a decepção de não haver a partida de futebol entre Brasil e Argentina, quando veríamos em campo Neymar contra Messi. E culminou com manifestações nas ruas por todo o País, uma fantasiosa tentativa de mostrar que “o povo brasileiro apoia Bolsonaro”. Falso. A verdade é que somente 20%, se muito, do povo brasileiro segue apostando no “capitão”. Os demais, nas ruas ou em suas casas, apenas esperam o ano que vem para mostrar, nas urnas, de modo pacífico e ordeiro, sua insatisfação.

Embora as manifestações tenham sido ordeiras, se constituíram em ameaças à Constituição sob nítido descumprimento das leis. Isso ficou claro nas palavras do próprio Bolsonaro, em comícios feitos em Brasília e São Paulo sobre carros de som no melhor estilo populista, sem falar de faixas e cartazes contra a independência dos poderes, pedindo golpe militar etc. Mais de 150 líderes mundiais, incluindo ex-chefes de estado e governo de 26 países, assinaram carta divulgada na segunda-feira (6/9), na qual criticam os protestos organizados por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro para o Dia da Independência, que, segundo eles, aumentam “os temores de um golpe de Estado na terceira maior democracia do mundo”.

Não há clima, muito menos merecemos, para qualquer retrocesso além dos que já estamos sofrendo com obscurantismo, incompetência e falta de seriedade na gestão pública. Pobre Brasil em que, na sua data cívica máxima, um miliciano responsável por esquema de corrupção na Assembleia Legislativa de um grande estado do País, Fabrício Queiroz, vestindo camisa verde e amarela, foi tratado como celebridade nas manifestações bolsonaristas no Rio de Janeiro. Perigosa inversão de valores.

*Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e professor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor de vários livros, entre os quais: Justiça Seja Feita, A Vila que Descobriu o Brasil e Pelos Caminhos da Educação

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