Testemunha que chorou de medo levou à nova prisão do operador do PSDB

Testemunha que chorou de medo levou à nova prisão do operador do PSDB

Homem que trabalhou 25 anos na Dersa ligou no dia 17 para o Ministério Público Federal e disse que tinha receio de comparecer à audiência na Justiça no dia seguinte e encontrar os réus da ação que liga Paulo Vieira de Souza a supostas irregularidades e desvios no Rodoanel de governos tucanos

Luiz Vassallo e Julia Affonso

30 Maio 2018 | 11h34

Paulo Vieira de Souza. FOTO: JF DIORIO / ESTADÃO

Uma testemunha que ligou chorando para o Ministério Público Federal de São Paulo, dizendo ter medo de depor, embasou a nova ordem de prisão do engenheiro Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa apontado como operador do PSDB. O homem, que acabou prestando depoimento em sala separada dos réus e sem a divulgação de suas imagens, relatou como ficou sabendo de desvios em programas de reassentamento da empresa da Desenvolvimento Rodoviário S/A.

Acusado pelo desvio de recursos de R$ 7,7 milhões da Dersa, entre entre 2009 e 2011 (governos Serra e Alckmin), Vieira de Souza foi preso nesta quarta-feira, 30, por ordem da juíza Maria Isabel do Prado, da 5.ª Vara Criminal Federal de São Paulo.

Um ex-chefe de departamento da companhia, Geraldo Casas Vilela, também teve prisão decretada. Logo cedo, agentes da Polícia Federal foram à casa de Vilela, mas ele não estava. Seu advogado, Fernando Araneo, informou que Vilela está viajando, mas vai se apresentar à PF.

Além da ação penal por desvios de R$ 7,7 milhões em reassentamentos para obras do Rodoanel Trecho Sul, Vieira de Souza é investigado por supostamente operar propinas para o PSDB.

Ex-executivos das empreiteiras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez relataram à Polícia Federal terem feito repasses de 0,75% ao ex-diretor da Dersa no âmbito da construção do Rodoanel.

Em cooperação com autoridades Suíças, a Lava Jato descobriu conta atribuída a Souza com R$ 113 milhões não declarados.

O ex-diretor da Dersa havia sido preso em 6 de abril. Ficou em regime preventivo até 11 de maio quando foi solto pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo.

Segundo a decisão judicial que manda prender o suposto operador tucano, a medida é necessária para ‘assegurar a instrução criminal’.

Na representação pela prisão de Vieira de Souza, o Ministério Público Federal sustentou as reiterações de ameaças por parte dos réus.

Em audiência no dia 18, o Ministério Público Federal já havia afirmado que uma testemunha – cujo nome está sob segredo – havia feito contato telefônico no dia anterior com a Procuradoria. “Após a testemunha entrar em contato, falou com o funcionário Emerson, o qual nos relatou que a testemunha estava chorando, com medo de vir à audiência pois temia que algo lhe acontecesse e temia encontrar os réus.”

“Orientei ao funcionário Emerson que ligasse para esta 5.ª Vara Federal Criminal para que a Justiça tomasse as providências necessárias a fim de garantir seu testemunho sem constrangimento”, afirmou o integrante da força-tarefa da Operação Jato na audiência.

Ex-funcionário da Dersa, o homem que se diz ameaçado afirmou ter trabalhado por 25 anos na empresa de capital misto, onde foi subordinado de outra acusada, Mércia Ferreira Gomes, e diz ter testemunhado irregularidades.

“Eu fazia a checagem de CPFs antes de realizar a sessão de dados de pagamentos. Ao fazer essa checagem, eu percebi que tinha uma divergência estranha. Algo que, enfim, nome que não batia, e alguma semelhança com o nome da pessoa que era minha chefe imediata, a Mércia Ferreira”.

A testemunha diz ter questionado Mércia sobre os desvios e recebido como resposta, tempos depois, um recado para ficar calado.

“Ela veio e eu senti como se fosse um pisão de pé. De uma maneira bem suave, sem ameaça. Ela falou: ‘ó, só te digo uma coisa, isso é bem maior do que você possa imaginar, então fica na sua’. E eu tenho uma tradição de ficar a minha mesmo”, narrou.

COM A PALAVRA, GERALDO ALCKMIN

Em seu primeiro ano de mandato, em 2011, Geraldo Alckmin determinou a implantação de uma política de governança na DERSA, o que incluiu a estruturação do Departamento de Auditoria Interna que, desde então, realizou investigações que desvendaram e confirmaram desvios e fraudes. Essas investigações internas ampararam o trabalho do Ministério Público Estadual e, posteriormente, do MPF. O governo Geraldo Alckmin sempre foi intolerante com qualquer desvio de conduta. Tanto que nenhum dos pagamentos apontados como irregulares resultaram de decisões tomadas em seu governo. Todos ocorreram entre 2009 e 2010 e os de 2011 referem-se a saldos residuais liberados na gestão anterior.

Mais conteúdo sobre:

DERSAoperação Lava Jato