Testemunha em ação contra mulher de Cunha diz que Benin era ‘poço seco’

Testemunha em ação contra mulher de Cunha diz que Benin era ‘poço seco’

Luís Eduardo Nascimento, auditor da Petrobrás, afirma ao juiz Sérgio Moro que parceira na África 'não tinha idoneidade financeira' e prejuízo da estatal chegou a US$ 23 milhões, em 2011

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Mateus Coutinho

31 Agosto 2016 | 04h00

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O auditor Luís Eduardo Alves do Nascimento. Foto: Reprodução

O auditor Luís Eduardo Alves do Nascimento, que integrou a comissão da Petrobrás para avaliar a compra de 50% do campo exploratório de Benin, na África, em 2011, disse ao juiz federal Sérgio Moro que a estatal ficou com um prejuízo de pelo menos US$ 23 milhões.

Nascimento depôs como testemunha da acusação em ação penal contra Cláudia Cruz, mulher do deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), acusada de lavagem de dinheiro.

Também são acusados neste processo o empresário português Idalécio de Castro Rodrigues de Oliveira, o lobista do PMDB João Augusto Rezende Henriques e o ex-diretor da Petrobrás Jorge Luiz Zelada (Internacional).

A força-tarefa da Operação Lava Jato suspeita que Eduardo Cunha recebeu propina de US$ 5 milhões no negócio de Benin. Ele não é alvo da ação conduzida por Moro porque detém foro privilegiado perante o Supremo Tribunal Federal.

Pelo menos US$ 1 milhão da propina de Cunha teriam sido destinados à conta da mulher do peemedebista.

Ela é acusada de lavagem de dinheiro. A investigação mostra que Cláudia gastou o dinheiro em compras de bolsas e sapatos de grife em lojas de alto padrão na Europa.

A operação na África malogrou porque uma empresa contratada pela Petrobrás, a CBH, do empresário português Idalécio de Oliveira, não tinha experiência no ramo, nem idoneidade financeira, nem estrutura. Contava com apenas seis funcionários. Mesmo assim, a Petrobrás aceitou a CBH como parceira em Benin.

Os investigadores suspeitam que Idalécio teria sido indicado pelo lobista João Henriques e que a Petrobrás contratou a CBH por influência de Eduardo Cunha.

Questionado se a auditoria identificou inconsistências em relação à aprovação do projeto, Luís Eduardo Alves do Nascimento declarou. “Com a empresa CBH, de capital fechado, a gente não teria como ter certeza se ela tinha capacidade financeira para honrar com os compromissos de uma operação desse vulto.”

A operação consistia na aquisição de 50% do campo exploratório. A Petrobrás se tornaria sócia da empresa. “O objeto da sociedade era a exploração de uma área em Benin e isso demanda recursos para operações de perfuração de poço, análise sísmica, demanda investimentos pesados.”

Ele disse que a CBH ‘não conseguiu mais cumprir com suas obrigações financeiras, a parte dela que cabia na sociedade’. O saldo foi uma dívida global de US$ 46,8 milhões.

“Para não deixar os fornecedores sem pagamento, a Petrobrás teve que assumir as despesas da CBH”, afirmou o auditor. “Isso não foi ressarcido à Petrobrás, até onde eu sei a Petrobrás assumiu 50% disso.”

Ele voltou a falar da empresa de Idalécio Oliveira. “Era uma empresa desconhecida, sem experiência no mercado de petróleo, contava apenas seis funcionários. Uma empresa sem ativos, sem expressão no mercado. Não detinha estrutura para uma operação complexa, desse porte.”

Nascimento destacou que o então diretor Jorge Luiz Zelada ‘era o responsável pelo negócio, ele recebia informações, teve uma apresentação, participou do colegiado, tinha responsabilidade, tinha que aprovar a oportunidade para depois ela ser enviada à Diretoria Executiva’.

Ele esclareceu que a diretoria de Zelada tinha a missão de ‘buscar oportunidades’.

“Fazia parte do nosso plano estratégico ampliar nossa atuação na África, principalmente na margem Atlântica.”

Citou Namíbia, ‘adquirida um pouco antes do Benin’, e o início de uma negociação na República do Congo.

Indagado se essas negociações tiveram êxito, o auditor foi taxativo. “Até onde eu sei, poços secos.”

Inclusive Benin?

“Inclusive Benin, poço seco.”