Testemunha de Lula, Dilma diz a procurador: ‘isso não é sério’

Testemunha de Lula, Dilma diz a procurador: ‘isso não é sério’

Ex-presidente se indigna com representante do Ministério Público Federal que perguntou a ela se soube de reunião 'a sós' entre o ex-ministro Paulo Bernardo e o empreiteiro Marcelo Odebrecht

Luiz Vassallo e Fausto Macedo

25 de outubro de 2019 | 18h29

Reprodução

A ex-presidente Dilma Rousseff reagiu em ‘protesto’ a uma pergunta da Procuradoria durante audiência na Justiça Federal de Brasília nesta quinta, 25. Testemunha arrolada pela defesa do ex-presidente Lula, a petista disse ao procurador: “O sr desculpa, mas isso não é sério.” Depois, dirigindo-se ao juiz Vallisney Oliveira, que presidia a audiência, a petista queixou-se. “Eu não concordo, estou protestando e peço para que o sr redija isso. É um desrespeito a mim.”

A audiência se deu por videoconferência. Dilma Rousseff estava na Justiça Federal do Rio Grande do Sul.

A ação penal se refere a um suposto acerto de US$ 40 milhões da Odebrecht ao PT pela liberação do aumento de uma linha de crédito do BNDES, em 2010.

Segundo a denúncia, com aval de Lula, o então ministro Paulo Bernardo (Planejamento) teria feito pedido de propinas ao empresário Marcelo Odebrecht.

Durante quarenta minutos, a defesa do ex-presidente e também a dos demais acusados fizeram perguntas a Dilma.

Quando a palavra foi passada ao procurador, ele explicou que, apesar de ter respondido questões sobre a política de empréstimos do governo a países estrangeiros, a denúncia se tratava de um acerto específico de propinas.

Em seguida, ele questionou se Dilma saberia de uma reunião ‘a sós’ entre Paulo Bernardo e Marcelo Odebrecht.

“Como eu poderia afirmar alguma coisa se a sua premissa é que ele recebeu a sós? Óbvio que eu não posso afirmar nada”, retrucou Dilma.

“Eu não vou afirmar nada, mas a pergunta…eu quero registrar ao juiz que a pergunta é um absurdo. Ele me dá como uma pressuposição que havia um fato a sós e me pergunta se eu posso afirmar alguma coisa sobre um fato a sós. A resposta está na pergunta dele. Ele responde”, queixou-se a petista.

Um embate em torno da pergunta ocupou 20 minutos. Durante a audiência, o juiz Vallisney de Oliveira chegou a questionar o procurador se não seria uma ‘pergunta diabólica’, e se a manteria.

A audiência se encerrou com a ex-presidente insistindo junto ao magistrado para registrar em ata um ‘protesto’ contra a pergunta.

Procurador: Eu gostaria de fazer uma pequena explanação acerca da acusação, pelo menos tal como a vemos, para poder partir para as perguntas. A acusação ela, neste momento, embora exista um número de réus maior, ela trata… o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro Paulo Bernardo e ela fala sobre solicitação e o tipo do crime é solicitar e receber vantagem indevida. Então, segundo a acusação, houve uma solicitação, e ela narra que também houve o recebimento de uma vantagem indevida por parte do ex-ministro Paulo Bernardo e que isso tinha ciência e contava com a adesão do ex-presidente Lula. Até aí vai a acusação. Digo isso para deixar claro que não estamos discutindo aqui e nem haveria por que discutir o mérito do modelo de financiamento ás exportações, o mérito do que foi adotado, quer no governo anterior, quer nos anos 70, 80, quer posteriormente a isso e também não está em discussão como foi feita a questão das grandes empresas nacionais e como elas participaram ou o que ocorreu com elas depois desse processo de combate à corrupção mais recente. Então, a acusação para na solicitação e recebimento de vantagem indevida. Exceto que a acusação narra que para viabilizar esses pagamentos, foi feito um ajuste que seriam aumentadas mais de uma linha de crédito ou linhas de crédito que foram feitas para a Angola, e aí estamos tratando em especial da linha 4 e também da linha 3, que foi feito, segundo o depoimento do senhor Marcelo Odebrecht. Essa solicitação de vantagem indevida teria sido feita pessoalmente pelo ex-ministro Paulo Bernardo ao senhor Marcelo Odebrecht. Esse acordo que elevou os valores da linha de crédito ocorreu em agosto de 2010, e a senhor já narrou que estava em campanha e portanto não estava acompanhando esse tipo de processo, mas essa solicitação certamente antecedeu a esse aumento da linha de crédito. Então, ocorreu antes. E aí vem a minha primeira pergunta: a senhora participava do dia a dia do ministério do Planejamento e teria como afirmar que o senhor Paulo Bernardo não teria recebido a sós numa reunião nas dependências do ministério com o senhor Marcelo Odebrecht?

Dilma: Como eu poderia afirmar alguma coisa se a sua premissa é que ele recebeu a sós? óbvio que eu não posso afirmar nada.

Procurador: Pois é só essa a pergunta, se a senhora pode afirmar, porque o senhor Marcelo Odebrecht…

Dilma: Eu não vou afirmar nada, mas a pergunta eu quero registrar ao juiz que a pergunta é um absurdo. Ele me dá como uma pressuposição que havia um fato a sós e me pergunta se eu posso afirmar alguma coisa sobre um fato a sós. A resposta está na pergunta dele. Ele responde.

Procurador: Na verdade, a senhora respondeu respondendo que a senhora não pode afirmar.

Dilma: Não, eu estou protestando contra a pergunta.

Procurador: Mas a senhora respondeu dizendo que não pode afirmar.

Dilma: Eu não vou responder uma pergunta que tem o objetivo preciso de tentar confusão. O senhor desculpa mas isso não é sério. Eu não concordo, estou protestando e peço para que o senhor redija isso. É um desrespeito a mim.

Procurador: A senhora está como testemunha.

Dilma: Eu posso ser testemunha mas continuo sendo cidadã.

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