Testar é o melhor remédio

Testar é o melhor remédio

Raíssa Pena*

12 de agosto de 2020 | 10h15

Raíssa Pena. Foto: Divulgação

Não, este não é um artigo sobre coronavírus e a importância da testagem. Ou talvez seja. Há dez anos sou profissional do mercado editorial. Nos primeiros anos de minha ainda enxuta carreira, fui repórter e colunista de uma grande editora e, desde 2017, transito pelo mercado do livro por uma via ainda pouco explorada: o financiamento coletivo. 

Há pouco mais de uma década no Brasil, o crowdfunding tem sido um aliado vital para milhares de artistas, músicos, jornalistas, designers, pesquisadores, gamers, cientistas, empreendedores e ativistas, que conseguem financiar seus projetos (e, muitas vezes, viver deles) por meio do apoio direto de suas comunidades. São fãs, alunos, seguidores e leitores que dedicam mais do que um like à ideia que acreditam: eles apoiam com dinheiro. 

Nos últimos anos, houve um crescimento acentuado da presença de campanhas de publicações na plataforma de crowdfunding onde trabalho, o Catarse. Em 2015, projetos editoriais movimentaram R$ 3,7 milhões e, no ano passado, levantaram juntos mais de R$ 12,5 milhões. Só em 2019, 862 títulos diferentes (entre romances, livros de não-ficção, quadrinhos, poesia e outros gêneros) foram financiados por meio do apoio direto dos leitores. É (muito!) mais do que as principais casas editoriais do país conseguem lançar por ano. Atualmente, centenas de autores independentes e editoras de diversos portes já planejam o calendário anual de lançamentos posicionando parte deles dentro do crowdfunding. 

A chegada da pandemia de covid-19 ao Brasil, no entanto, agravou a situação financeira de muitos autores, editoras e livrarias brasileiras – principalmente as pequenas. Sem soluções efetivas do poder público ou de uma grande e única mobilização nacional pelo livro, o financiamento coletivo provou seu valor na cadeia produtiva. E, mais uma vez, fortaleci minha crença pessoal de que não existe projeto perfeito, mas projeto rodando. Nos últimos meses, vi surgir várias iniciativas de crowdfunding potentes, como a campanha da rede de livrarias Blooks, a ação da Câmara Brasileira do Livro e o projeto que ajudei a desenhar no Catarse, o +LIVROS – fundo de incentivo para autores, editoras e livrarias independentes.

Não acredito que exista uma solução capaz de corrigir os rumos do mercado livreiro do Brasil de uma tacada só. Não há governo em qualquer esfera dedicado à promoção do setor e não enxergo consenso entre as entidades de classe e demais associações da cadeia do livro capaz de fomentar uma ação unificada. O que dá pra fazer agora pelo mercado? 

Em abril, começou então uma força-tarefa dentro do Catarse. Peguei o telefone e, à moda antiga, liguei para os profissionais mais importantes e bons de papo do mercado do livro. Um corpo técnico composto por nove profissionais de referência no mercado e mais de 600 pessoas que fazem e leem livros nos ajudaram a conhecer melhor o cenário que queríamos amenizar. Adicionamos as ideias dessa comunidade à nossa imensa vontade de prestar um serviço ao mercado independente do livro, que abraçou o crowdfunding desde o começo. Batemos na porta também de dezenas de empresas do ecossistema editorial, grandes e pequenas, concorrentes e estreantes: o cenário é inédito e a solução precisou ser inédita também. 

Toda a equipe do Catarse se debruçou sobre o assunto e, centenas de e-mails, mensagens de WhatsApp, negociações e videoconferências depois, nasceu o fundo +LIVROS. Na prática, trata-se de uma campanha de financiamento coletivo (claro!) que reúne doações de empresas e de pessoas físicas para distribuir a autores, editoras e livrarias independentes selecionadas. 

Em apenas duas semanas, 689 agentes do livro se inscreveram para a seleção, recebemos apoio de 15 marcas parceiras e de mais de 600 pessoas. A campanha fica no ar até o dia 19 de agosto e, até o fechamento deste artigo, já arrecadamos mais de R$ 465 mil, suficientes para contemplar cerca de 100 profissionais e pequenas empresas do livro com doações em dinheiro e em serviços de fornecedores parceiros. Quanto mais apoios de marcas e de pessoas a campanha receber, mais autores e pequenas empresas do livro conseguiremos contemplar. (Ainda dá tempo de contribuir!).

O projeto ainda nem terminou e já vejo pontos que gostaria de melhorar, mas teste é assim mesmo: a gente planeja, pede opiniões, cria um protótipo, pede opiniões de novo e bota no mundo. Tantos profissionais apaixonados pelo livro, de tantos cantos diferentes do Brasil e com perspectivas tão diversas, estão envolvidos no fundo +LIVROS, que me fazem acreditar que o relacionamento entre crowdfunding e mercado editorial ainda vai longe. Ou, pelo menos, que o teste está dando muito certo. 

*Raíssa Pena, jornalista, diretora de Publicações do Catarse, vencedora do Prêmio Publish News Jovens Talentos da Indústria do Livro (2018), finalista do Prêmio Abril de Jornalismo (2013) e co-autora dos livros Casa e Chão (2016) e Crowd (2020).

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