Tesoureiro do PT ‘negociava propina diretamente com empreiteiras’, diz delator

João Vaccari Neto, segundo ex-gerente de Engenharia da Petrobrás, cobrava 1% de propina para o partido sobre valor dos contratos; Procuradoria aponta envolvimento de petista em 'pelo menos 90 grandes obras' da estatal

Redação

23 de março de 2015 | 20h51

Tesoureiro do PT João Vaccari, que virou réu em processo da Lava Jato - Foto: Sérgio Castro/Estadão

Tesoureiro do PT João Vaccari, que virou réu em processo da Lava Jato – Foto: Sérgio Castro/Estadão

Por Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

O tesoureiro do PT João Vaccari Neto negociava diretamente com as empreiteiras o porcentual a ser repassado para o partido. A revelação foi feita pelo engenheiro Pedro Barusco, ex-gerente de Engenharia da Petrobrás que foi braço direito de Renato Duque, ex-diretor de Serviços da estatal.

Em novos depoimentos que prestou nos dia 9 e 12 de março, no âmbito da delação premiada que firmou com a força tarefa da Operação Lava Jato, Barusco citou o suposto pagamento de propinas nas obras do Gasoduto Pilar-Ipojuca, na Bahia, no valor equivalente a 2% do contrato e aditivos – esse contrato foi fechado pelo preço de R$ 430 milhões e três aditivos somaram mais R$ 139,8 milhões. A OAS foi contratada para a obra.

Pedro Barusco. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Em novos depoimentos, Barusco citou suposto pagamento de propinas nas obras do Gasoduto Pilar-Ipojuca. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

A propina paga para a Diretoria de Serviços, então sob comando de Duque, chegou a R$ 11,39 milhões. Segundo Barusco, “houve pagamento de vantagens indevidas e metade desse valor ficava com o Partido dos Trabalhadores, sendo negociado diretamente por João Vaccari com os representantes da empreiteira”.

Barusco explicou que entre 2011 e 2013 esteve reunido, “aproximadamente uma vez por mês, com João Vaccari Neto, tesoureiro do Partido dos Trabalhadores”. Segundo o delator, as reuniões ocorreram em hotéis de luxo, principalmente em Copacabana, no Rio, e que participavam Duque, Vaccari e ele.

“Era tratado do andamento de alguns projetos e contratos, em relação aos quais o Vaccari tinha interesses em ter conhecimento.”

Barusco, que era braço-direito de Duque afirmou ainda que “Vaccari formulava algumas reivindicações em nome de empresas, por exemplo, para ver se era possível resolver algum problema, envolvendo licitações, celebrações de aditivos, inclusão de empresas na lista de empresas cadastradas, ou mesmo problemas técnicos”.

O ex-gerente de Engenharia disse que as solicitações eram “atendidas dentro do possível, no limite dos procedimentos e requisitos técnicos das Petrobrás”.

“Nestas reuniões também era tratado da divisões do pagamento de propina.”

Barusco explicou que a partir da reunião “cada um operacionalizava o recebimento de sua parte”.

O advogado criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende Vaccari, afirma que o tesoureiro do PT arrecada exclusivamente doações lícitas, todas declaradas à Justiça eleitoral. D’Urso repudia as delações premiadas que apontam para Vaccari. Segundo o criminalista, os delatores “faltam com a verdade”.

A OAS nega a prática de cartel na Petrobrás e afirma que não pagou propinas para o tesoureiro do PT.

LEIA TRECHOS DA DENÚNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

“JOÃO VACCARI desde há muito tempo se reunia com RENATO DUQUE mensalmente para, abertamente, discutir os andamentos dos contratos e os pagamentos das propinas. JOÃO VACCARI, representando o PT segundo afirmam os colaboradores, recebeu propinas de dezenas de milhões de reais por longo período entre 2003 e 2011, em decorrência de pelo menos 90 grandes obras da PETROBRÁS.”

“PEDRO BARUSCO passou a participar de tais reuniões entre 2011 e 2013, as quais ocorriam em diversos hotéis (Cesar Park, Sofitel Copacabana e Windsor Copacabana, no RJ, e Sofitel Sena Madureira, Transamérica Morumbi e Meliá Alameda Santos, em SP).”

“Nessas reuniões, JOÃO VACCARI chegava a apresentar reivindicações das empresas referentes a licitações, aditivos, cadastro e problemas técnicos, colaborando com a contraprestação do pagamento das propinas. JOÃO VACCARI também, por vezes, tratava diretamente com representantes das empresas acerca da propina.”

COM A PALAVRA, O PT.

“São Paulo, 23 de Março de 2015 – A respeito dos fatos veiculados hoje, a Secretaria de Finanças do Partido dos Trabalhadores gostaria de esclarecer o seguinte:

O secretário João Vaccari Neto não participou de nenhum esquema para recebimento de propina ou de recursos de origem ilegal destinados ao PT. Ressaltamos que o secretário Vaccari não ocupava o cargo de tesoureiro do PT no período citado pelos procuradores na ação aceita pela Justiça, uma vez que ele assumiu essa posição apenas em fevereiro de 2010.

O secretário Vaccari repudia as referências feitas por delatores a seu respeito, pois as mesmas não correspondem à verdade. Ele não recebeu ou solicitou qualquer contribuição de origem ilícita destinada ao PT, pois as doações realizadas por empresas legalmente estabelecidas foram efetuadas por meio de depósitos bancários, com toda a transparência e com a devida prestação de contas às autoridades competentes, observando sempre os parâmetros da legislação eleitoral.

O secretário Vaccari permanece à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos necessários, como sempre esteve desde o início dessa investigação. E reitera que apresentará sua defesa demonstrando que as acusações que pesam contra ele não são verdadeiras.

Assessoria de Imprensa do PT Nacional”

LEIA A ÍNTEGRA DOS NOVOS DEPOIMENTOS DO DELATOR PEDRO BARUSCO