Terá sido castigo?

Terá sido castigo?

José Renato Nalini*

18 de fevereiro de 2021 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Todos se recordam daquela piada que nos faz rir, embora a vontade fosse de chorar: o país maravilhoso, de clima ameno, onde se plantando tudo dá, com as mais deslumbrantes belezas naturais, etc. etc. E o Criador, ante o ressentimento de outros povos, teria dito: – “Espere para ver o povinho que vou colocar lá…”.

Pois às vezes parece que o humor detectou as características inconfundíveis de uma Nação que destrói sua natureza, mas procura se armar para a pretensa defesa contra os facínoras. Um país com quarenta partidos políticos, que não tem empregos a oferecer, nem perspectivas de vida para a enorme maioria de seu povo. Mas que tem Fundo Partidário, Fundo Eleitoral, proliferação de cargos em comissão.

Fica devendo para as entidades internacionais das quais faz parte, mas ofende dignitários estrangeiros, ou a mulher deles, ridiculariza jovem que mostra a proximidade do cataclismo global, diante de um aquecimento provocado pelo excesso de emissão de gases tóxicos.

Muitos paradoxos no país que acompanha o ranking das mortes por Covid querendo chegar à frente dos Estados Unidos e fazendo força para isso. É só verificar o grau de ignorância dos que se aglomeraram durante o Carnaval que não houve. É a dança da morte, a busca de uma saída definitiva para uma Nação que, assim dizia Claude Lévy-Strauss, chegou ao declínio sem ter passado pelo ápice.

As explicações de que somos uma sociedade jovem, com “apenas” 520 anos, já não convencem. Os Estados Unidos têm a mesma idade. Podemos nos comparar com eles?

Vamos surfar na imaginação. Talvez o Brasil tenha merecido o castigo de não conseguir concretizar seus ambiciosos sonhos, porque abandonou o seu nome original. Há um interessante artigo de Laura de Mello e Souza, “O nome Brasil”, que ajuda a fazer essa reflexão.

Tudo recomendava que o Brasil tivesse um nome compatível com os privilégios espontaneamente concedidos pela Providência. Afinal, o Cruzeiro do Sul era “a mais famosa constelação de todos os novos céus”, na visão da historiadora Patrícia Seed.

Pero Vaz de Caminha, na carta de 1º de maio de 1500, chamou este território de “Vera Cruz”. Durante trinta anos, após isso, foi conhecida por “Santa Cruz”. Foi esse o nome que D. Manuel usou para comunicar aos sogros, os Reis Católicos, o achamento de novas terras.

Aos poucos, iniciou-se o costume de chamar esta parte do mundo de “Brasil”. Não é novidade que em virtude do abundante pau-brasil, de brasa, que era utilizado para tingir tecidos. Houve uma oscilação na nomenclatura, pois o mapa do Visconde de Maiolo, de 1527, fala em “Tera de Santa Cruz do Brasil e de Portugal”.

Já se evidenciava uma disputa entre humanistas e comerciantes. Os primeiros, queriam que a descoberta merecesse uma consideração cristã. A Igreja Católica justificava a colonização para a evangelização dos povos bárbaros, os indígenas. Já os empreendedores da época estavam interessados era nos lucros que poderiam extrair das novas terras.

João de Barros parece ter sido o fundador de uma tradição em que a narrativa descreve a luta entre Deus e o Diabo. Para ele, Cabral quis homenagear o Lenho Sagrado, “inscrevendo o sacrifício de Cristo na gênese da terra encontrada, que ficava assim toda ela dedicada a Deus, como a expressar as grandes esperanças na conversão dos gentios”.

A cruz foi erguida, mas o demônio logo começou a agir para derrubá-la. O lucro fácil levou os exploradores da madeira a preferirem seu nome ao da cruz de Cristo. “Assim, era como se importasse mais o nome de um pau que tinge panos do que o daquele pau que deu tintura a todos os sacramentos por que somos salvos, pelo sangue de Cristo que nele foi derramado”.

João de Barros chegou a advertir: devolva-se à terra o nome original, “o nome que com tanta solenidade lhe foi posto, sob pena de a mesma cruz que nos há de ser mostrada, no dia final, os acusar de mais devotos do pau-brasil do que dela”.

Não se mostrou suficiente recordar que o nome de Santa Cruz, fazia sentido não apenas em razão da primeira missa ter sido rezada no dia 3 de maio, data da comemoração do Lenho Sagrado, mas porque as terras descobertas por portugueses cabiam à Ordem de Cristo, cujos cavaleiros traziam no peito a cruz por insígnia. Havia um caráter sagrado na colonização.

Frei Vicente do Salvador, em sua “História do Brasil” de 1627, sustentava que a tensão entre Deus e o Diabo era mais do que mera retórica. A restauração impunha “a necessidade de recolocar a colonização dos trilhos: o vício do nome funcionava, assim, como metáfora ao vício mais arraigado da colonização”.

Prevaleceu o interesse comercial. Como Brasil vem de brasa, outra metáfora se escancara em pleno 2021: as queimadas na Amazônia, no Pantanal, deixando em brasas e depois convertendo em deserto, as terras férteis que um dia foram chamadas “Santa Cruz”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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