Teori afasta sigilo de delação que cita propina em apartamentos funcionais

Teori afasta sigilo de delação que cita propina em apartamentos funcionais

Ministro do Supremo Tribunal Federal decide abrir todos os relatos de Rafael Ângulo Lopez, apontado como emissário do doleiro Alberto Youssef, peça central da Operação Lava Jato

Redação

04 de dezembro de 2015 | 18h39

Teori Zavascki. Foto: André Dusek/Estadão

Teori Zavascki. Foto: André Dusek/Estadão

 

Beatriz Bulla, de Brasília, e Julia Affonso

Propina em apartamentos funcionais, embaixo da cama, R$ 1,5 milhão de reais transportado em malas e aviões fretados. Essa é a descrição feita pelo funcionário do doleiro Alberto Youssef, Rafael Ângulo, em delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato.

Ângulo era conhecido por ser o “emissário” e entregador de dinheiro de Youssef. Nos depoimentos, ele relata pagamento de propina a parlamentes do PP em residências funcionais em Brasília.

Confira a íntegra dos documentos:

Documento

Documento

A delação de  Ângulo, formalizada em dezembro do ano passado, foi mantida em sigilo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) até agora. A pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ministro Teori Zavascki retirou o sigilo dos depoimentos no último dia 26. Alguns depoimentos públicos do funcionário à Justiça Federal no Paraná, no entanto, confirmaram afirmações feitas na colaboração premiada. Ainda há outras delações ocultas no sistema do STF, como os depoimentos do dono da UTC, Ricardo Pessoa, e do lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano.

Ao Ministério Público, Ângulo disse que o ex-deputado Pedro Corrêa (PP) frequentava semanalmente o escritório de Youssef para buscar dinheiro em espécie, levar dados de contas de terceiros para depósitos – inclusive de escritório de seu filho. Em média, segundo o emissário de Youssef, o ex-deputado recebia R$ 250 mil por mês fracionados. “Pegava reais, dólares e euros”, consta na delação de Ângulo. Ele disse ainda entregar dinheiro no apartamento funcional do deputado e entre R$ 100 e R$ 200 mil duas vezes por mês no apartamento funcional do ex-deputado João Pizzolatti (PP-SC), “onde costumavam se reunir Mário Negromonte, José Janene, Pedro Corrêa, Nelson Meurer, além do próprio Pizzolatti”.

Sobre Pizzolatti, Ângulo narra que fazia repasses de duas a três vezes por mês, com entregas de R$ 100 mil e R$ 200 mil em média “fora as vezes que ele ia ao escritório de Alberto Youssef, onde retirava reais, dólares e euros”. O terceiro apartamento funcional usado na capital federal para receber propina era o do ex-ministro Mário Negromonte, que recebia entre R$ 100 mil e R$ 150 mil entre uma e duas vezes por mês.

Ângulo cita ainda pagamentos ao deputado Nelson Meurer e aos ex-deputados Luiz Argolo (ex-PP, atualmente afastado do SD-BA), Aline Corrêa (PP-SP) e André Vargas (ex-PT/PR). No caso de Argolo, o emissário de Youssef diz que o político comparecia até três vezes por mês no escritório do doleiro onde retirava valores entre R$ 100 mil e R$ 200 mil. Apelidado de “bebê Johnson”, Argolo chegava de avião particular para facilitar o transporte de valores que podiam chegar a R$ 600 mil. Ele também chegou a dormir no apartamento funcional de Argolo em Brasília para fazer pagamento. Quando o deputado não estava, o entregador de dinheiro deixava os valores embaixo da cama do ex-deputado. Ele chegou a entregar dinheiro a Argolo também em “convenções, congressos e estacionamentos de veículos”.

O delator conta também que uma vez presenciou o transporte de R$ 1,5 milhão de Recife a São Paulo, em duas malas. A viagem foi feita em avião particular fretado. Youssef, o funcionário e um advogado viajaram para a capital de Pernambuco em um feriado com uma mala vazia. Após um encontro em um hotel na cidade, o doleiro retornou com duas malas cheias e pesadas, nas quais ficou sabendo que continham R$ 1,5 milhão. A pessoa com quem Youssef se encontrou levou os três ao aeroporto em uma Hilux.

Nos depoimentos, o delator confirma entrega de R$ 60 mil pessoalmente ao senador Fernando Color (PTB-AL) em apartamento na Bela Vista, bairro de São Paulo.

Pedro Corrêa tem afirmado por meio de sua defesa que não praticou nenhum ato ilícito. O ex-deputado João Pizzolatti e o deputado Nelson Meurer têm negado recebimento de dinheiro em espécie entregue por Rafael Ângulo. O ex-ministro Mário Negromonte nega envolvimento em esquemas de corrupção.
A defesa dos ex-deputados Luiz Argôlo (ex-PP, atualmente afastado do SD-BA), Aline Corrêa (PP-SP), filha de Pedro Corrêa, e André Vargas (ex-PT/PR) não foi localizada.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.