‘Tentativa de interferência em investigações é ato da mais elevada gravidade’, diz Lava Jato

‘Tentativa de interferência em investigações é ato da mais elevada gravidade’, diz Lava Jato

Procuradores que integram a força-tarefa da operação no Paraná afirmam que é 'inconcebível' o acesso do presidente da República a informações sigilosas

Paulo Roberto Netto

24 de abril de 2020 | 13h39

A força-tarefa da Lava Jato no Paraná afirmou que as declarações do ex-ministro Sérgio Moro sobre tentativas de interferência do presidente Jair Bolsonaro são atos ‘da mais elevada gravidade’ e que é ‘inconcebível’ o acesso do Planalto a informações sigilosas.

“A tentativa de nomeação de autoridades para interferir em determinadas investigações é ato da mais elevada gravidade e abre espaço para a obstrução do trabalho contra a corrupção e outros crimes praticados por poderosos, colocando em risco todo o sistema anticorrupção brasileiro”, afirma a Lava Jato.

De acordo com os procuradores, a escolha de pessoas para cargos na estrutura do Ministério da Justiça e da Polícia Federal não pode servir ‘para interferência político-partidária nas investigações e processos’.

“É inconcebível que o Presidente da República tenha acesso a informações sigilosas ou que interfira em investigações”, afirma a força-tarefa.

O procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato. Foto: Pedro de Oliveira / Alep

Ao anunciar sua demissão do governo federal, Moro criticou a insistência do presidente Jair Bolsonaro para a troca do comando da Polícia Federal, sem apresentar razões aceitáveis. O ex-juíz da Lava Jato também disse que o presidente queria ter acesso a informações e relatórios confidenciais de inteligência da PF.

Moro afirmou que Bolsonaro não o queria mais no cargo de ministro de Justiça e Segurança Pública – posto que assumiu em janeiro de 2019, após 22 anos de magistratura e a cadeira da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Operação Lava Jato.

“O presidente me disse que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência, seja diretor, superintendente, e realmente não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação. As investigações têm de ser preservadas”, disse Moro, que comparou a ação sobre os receios de interferência na instituição durante o governo petista. “Imagina se na Lava Jato, um ministro ou então a presidente Dilma ou o ex-presidente (Lula) ficassem ligando para o superintendente em Curitiba para colher informações”.

De acordo com Moro, a partir do segundo semestre do ano passado, “passou a haver uma insistência do presidente com a troca do comando da Polícia Federal”.

“O presidente passou a insistir também na troca do diretor-geral. Eu disse ‘Não tenho nenhum problema em trocar o diretor-geral, mas eu preciso de uma causa’. Estaria claro que haveria interferência política na PF”, afirmou.

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