Tendências 2020: sustentabilidade não é apenas um ‘chavão’

Tendências 2020: sustentabilidade não é apenas um ‘chavão’

Fabiana Carmona*

18 de fevereiro de 2020 | 04h30

Fabiana Carmona. FOTO: DIVULGAÇÃO

O que era considerado tendência quando falamos em hábitos de consumo, está se solidificando a cada ano e cada vez mais ocupando um grau de importância na vida dos consumidores. Em uma pesquisa realizada pela IFCI (International Food Information Council Foundation), em 2020 os tópicos que envolvem sustentabilidade, alimentos alternativos e dietas saudáveis serão o foco dos consumidores e tendências que as empresas deverão ficar atentas para seu crescimento.

De acordo com a pesquisa, a cobrança e o interesse pela sustentabilidade cresceu nos últimos ano, embora em 2020 o tópico amadureça e evolua, ainda existem algumas dúvidas que envolvem a definição exata de sustentabilidade.

Por vários anos, a Pesquisa Anual de Alimentos e Saúde da Fundação IFIC perguntou se a sustentabilidade era um fator nas decisões de compra de alimentos e bebidas dos consumidores. Entre 2012 e 2018, esse número variou entre 35% e 41% dos consumidores. No entanto, quando a Pesquisa de 2019 perguntou se “sustentabilidade ambiental” era um fator nas escolhas de compra, esse número caiu para 27%, indicando que as noções de sustentabilidade dos consumidores se estendem além do ambiente. ???Quando se trata de sustentabilidade ambiental, os consumidores estão ansiosos para saber e fazer mais pelo ambiente. De acordo com a Pesquisa de Alimentos e Saúde de 2019, 63% disseram que é difícil saber se as escolhas alimentares que fazem, são ambientalmente sustentáveis. Entre esse grupo, quase dois terços (63%) afirmam que a sustentabilidade ambiental teria sim uma maior influência em suas escolhas se fosse mais fácil saber.

Os consumidores também consideraram fatores como a rotulagem de vários ingredientes e atributos do produto, juntamente com métodos de produção e embalagens de alimentos, como parte da sustentabilidade.

Alimentos à base de plantas continuam entre as tendências…

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas, a agricultura, a silvicultura e outros usos da terra são responsáveis por quase um quarto das emissões globais líquidas de gases de efeito estufa causadas por seres humanos.

Em 2020, os consumidores ficarão mais preocupados com o papel em que o sistema alimentar desempenha nas mudanças climáticas, como os efeitos da produção agrícola, desperdício de alimentos e transporte de mercadorias. Uma revisão sistemática da pesquisa feita em 2016 sugere ainda que “um padrão alimentar mais elevado em alimentos à base de plantas (por exemplo, legumes, frutas, legumes, sementes, nozes, grãos integrais) e mais baixo em alimentos à base de animais (especialmente carne vermelha), é mais saudável e está associado a um menor impacto no meio ambiente. ”

As preocupações ambientais continuarão a impulsionar uma maior adoção de dietas à base de plantas. No entanto, as concepções dos consumidores de dietas à base de plantas variam. Cerca de um terço (32%) dos consumidores afirmaram que uma dieta baseada em vegetais é considerada vegana, enquanto outros 30% a definem como uma dieta que enfatiza alimentos minimamente processados e derivados de plantas, com consumo limitado de carne, ovos e laticínios de animais. Já 20% dos consumidores acreditam que uma dieta vegetariana é a que evita o consumo de carne de animal, enquanto 8% diz que é uma dieta em que você consome o máximo de frutas e legumes possível, sem limite de consumo de carne de animal, ovos e laticínios.

Alimentação Intuitiva

Em 2020, de acordo com a pesquisa, podemos esperar que os consumidores considerem novas idéias sobre como e por que comemos. Dietas da moda e regimes de emagrecimento rápido continuarão a perder popularidade, substituídos por conceitos mais holísticos e sustentáveis, como a alimentação intuitiva, que rejeita muitos dos princípios das dietas da moda, como “bons alimentos” e “maus alimentos”. As dietas se concentrarão menos em restrições alimentares e mais em produtos naturais. ???A Pesquisa de Alimentos e Saúde de 2019 constatou que 49% das pessoas de 18 a 34 anos estão familiarizadas com a alimentação consciente e intuitiva, enquanto apenas 27% dos consumidores acima de 50 anos ouviram falar dos termos. Equilíbrio e moderação não são modismos e não desaparecem tão cedo.

E no Brasil?

No Brasil não é diferente, desafiadas pelas crescentes expectativas dos consumidores, as indústrias de alimentos estão passando por uma profunda transformação para atender os consumidores em suas diferentes momentos de consumo, criando uma gama de oportunidades para o desenvolvimento de produtos , que vão desde o café da manhã, almoço e jantar até os lanches e momentos especiais de comemoração e relaxamento.

Bem-estar, saúde e sustentabilidade caminham cada vez mais lado a lado, refletindo a preocupação das pessoas com a sua própria saúde e a saúde do planeta e podem servir de orientação para as movimentações das marcas interessadas em atender este novo momento de consumo.

Reflexo desse momento, o mercado de orgânicos também avança no país. É o que aponta uma pesquisa feita pela Associação Paulista de Supermercados (APAS). No último ano, o levantamento identificou que 39% da população comprou pelo menos um item orgânico no período. O número atual é 9% maior que o mesmo registrado em 2016.

Dados do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis) informam que o mercado brasileiro faturou em 2018, R$ 4 bilhões. Segundo o estudo, o número só não é maior porque 56% dos clientes apontam o preço como o principal fator que limita o consumo desse tipo de alimento. Podemos citar algumas empresas e Startups, que estão explorando novas tecnologias, novos modelos de negócios e novos conceitos de produtos para atender essa tendência.

A empresa Livup por exemplo, lançou recentemente produtos com a Carne Sustentável, evidenciando a transparência em relação à rastreabilidade do pasto, aproveitamento dos cortes bovinos entre outras ações para atrair o consumidor. Empresas nacionais tambem estão se movendo e apostando na produção de embalagens que geram impacto sócio-ambiental positivo, feitas à base de fécula de mandioca, água e fibras naturais, com uma produção totalmente limpa e com produtos ecológicos integrados ao ciclo natural da vida.

Guiada por este cenário, a Mintel reforça recomendações às marcas no relatório Global Food and Drink Trends 2030: “Os consumidores recompensarão as empresas que agirem em questões ambientais, instituirão práticas comerciais éticas e melhorarão outras causas sociais importantes. As empresas que vencerão de 2020 a 2030 serão aquelas que alimentam a nova era o consumo consciente. Os consumidores conscientes de amanhã procurarão embalagens e produtos ecológicos, além de buscar orientações sobre como tornar suas dietas mais sustentáveis”.

E a sua empresa? Está focada em atender a essa demanda? Analisar o comportamento dos consumidores, entender com mais profundidade a sua busca por saúde e bem-estar, observar suas preferências de acordo com ocasiões de consumo e a frequência com que se fazem refeições dentro e fora de casa são caminhos essenciais para despertar o interesse dos brasileiros e nortear as iniciativas das indústrias.

*Fabiana Carmona, consultora de Food Service da AGR Consultores

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