‘Tempus fugit’

‘Tempus fugit’

Carter Batista*

22 de fevereiro de 2019 | 04h00

Carter Gonçalves Batista. Crédito: Divulgação

Os menos observadores dentre nós, vez ou outra, já surpreenderam os pais utilizando expressões aluídas, gírias mofadas, novidades obliteradas e revoluções que o tempo tornou obsoletas. Não é preciso aplicar o carbono 14 para saber que tem mais de mil anos alguém que ainda diz coisas como “carango”, “borocoxô”, “gamado”, “pombas”, “tutu”, “um estouro” e “xuxu beleza”.

Por meu turno, cresci vendo meu pai dizer coisas “do arco da velha’ e recusar-se decididamente a entender (o que dirá repetir), todas as perversões da gente nova que, renitentes, foram surgindo nos últimos 37 anos.

Com relação a algumas predileções, o velho se sentiu confortável e cessou todas as atualizações em algum rincão já quase insondável dos anos 50. É como se seu espírito recusasse tudo que veio depois disso. Nada do que surgiu entre o lançamento de The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio) do J. D. Salinger e a quinta temporada de Game of Thrones foi absorvido por ele. Pelo contrário, num tributo a Francisco Alves, ele repudiou com fidelidade sacrossanta tudo que apareceu: Bill Haley, Elvis Presley, Chuck Berry, a bossa nova, o heavy metal, o disco, Funk, hip hop e soul, o reggae, new Age, e até mesmo, pasmem, o sertanejo universitário.

Hoje eu penso tê-lo compreendido um pouco mais. Já ultrapassei os 40 e nem mesmo chegue à metade da idade que o meu velho alcançou. Contudo, mesmo hoje, já me sinto em choque com as gerações mais novas. Há algum tempo já não há nada novo em minhas predileções. As músicas, os filmes, os livros que mais gosto estão todos no passado, afinal, no “meu tempo” tudo era melhor.

O ciclo então se repete. Desde Ássur, desde a Babilônia que o choque entre o velho e o novo se renova a cada geração. Imagino volumes intermináveis sobre esse assunto perdidos para sempre no incêndio da Grande Biblioteca de Alexandria; penso em Trajano lamentando a geração de Adriano com seu exacerbado gosto pelas frivolidades da Hélade vislumbro Pepino, o Breve, reprovando as novas o desapego aos costumes por parte de Carlos Magno e no Duque de Wellington resmungando que jamais haverá outra Waterloo.

Devo admitir, entretanto, que nada disso foi capaz de refrear a inexorável marcha do progresso. Para cada “viva”, para cada “urra” da juventude, houve, há e haverá sempre duzentos e setenta e quatro mil velhos decadentes a lamentar.

De fato, o que me abriu os olhos para a passagem do tempo foi esse novel “top” que está por aí na boca de quase todo mundo. Vejam bem, não me presto aqui a julgar os que exultam e enaltecem o mundo ao seu redor dizendo que esse, isso ou aquilo “é top”. Não é essa a minha função. Apenas afirmo que o “top” marcou o ponto até onde penso que consegui, a duras penas, escalar a encosta dos acontecimentos, na tentativa de acompanhar os avanços das novas gerações, que já vão além do topo. Algo em mim, por algum motivo, simplesmente não me permite o emprego do “top”. Me sinto encanecido e impotente e (confesso) até levemente irritado com sua disseminação.

Um dia, quiçá, meu filho fará uma pausa e entenderá porque o seu (cada vez mais) velho e anacrônico pai, decidiu se proteger e conservar seu filtro (aquele utilizado para suportar o mundo em derredor) em uma espécie de redoma que desafia a gravidade e mantém as areais do tempo suspensas e inamovíveis, como em um sonho. “Sed fugit interea fugit irreparabile tempus.”

*Carter Batista, advogado e sócio do escritório Osório & Batista

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