Tempos amargos

Tempos amargos

José Renato Nalini*

13 de janeiro de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Comecei a me interessar por Zygmunt Bauman a partir de artigos de meu colega e amigo Newton de Lucca. Passei a ler todos os livros do sociólogo polonês, que desenvolveu o conceito de “sociedade líquida”. Como aprendiz de ética, não poderia deixar de me debruçar sobre o conteúdo do livro “Vida em fragmentos”, cujo subtítulo é “sobre a ética pós-moderna”. Notável pensador, Bauman aborda o tema da moralidade sem uma ética, fala sobre vidas despedaçadas e estratégias partidas, elabora um catálogo de medos pós-modernos.

Para ele, a pós-modernidade trouxe nova perspectiva para a ortodoxa compreensão da moralidade e da vida moral. Na sua concepção, “o ético é o moral que já foi antecipado, ‘comunitarizado’ ou divinizado. Na temporalidade do meio, o ético – a lei – sempre já chegou. Ele contribui muito pouco para aplacar a ansiedade, assim como o conhecimento de que o veredito de Deus já foi previamente estabelecido contribui para dispersar os pesadelos dos pios calvinistas”.

Também dissequei o livro “A ética é possível num mundo de consumidores?”, onde ele afirma que “a população de qualquer país, hoje, é uma coleção das diásporas. Qualquer cidade de dimensões consideráveis é agora um agregado de enclaves étnicos, religiosos e de estilo de vida, cuja linha divisória entre insiders e outsiders se torna uma questão ferrenhamente discutida, ao passo que o direito de traçar essa linha, de mantê-la intacta e torná-la inexpugnável se transformou no principal elemento de disputa nos conflitos sobre a influência e nas batalhas sobre reconhecimento que a eles se seguem”.

O autor que disseminou a liquidez da sociedade moderna entende que “a beleza encontrou o destino sofrido por todos os outros ideais que motivavam a inquietação e a rebelião humanas. A busca de uma verdadeira harmonia e da duração eterna foi pura e simplesmente reformulada sob o modo de uma preocupação imprudente. Valores são valores desde que estejam aptos ao consumo instantâneo, imediato. Valores são atributos de experiências momentâneas. E também a beleza. E a vida? A vida é uma sucessão de experiências momentâneas”.

Utilizei-me bastante de suas lições na pequena obra “Sobre educação e juventude”, resultante de suas conversas com Ricardo Mazzeo. Ele detectara o fenômeno da inflação de informações e dados que angustia os contemporâneos e que torna a educação uma tarefa invencível. Pois “quando quantidades crescentes de informação são distribuídas a uma velocidade cada vez maior, torna-se progressivamente mais difícil criar narrativas, ordens ou sequências de desenvolvimento. Os fragmentos ameaçam se tornar hegemônicos. Isso tem consequências para as maneiras como nos relacionamos com o conhecimento, o trabalho e o estilo de vida num sentido amplo. A memorável sentença de Roberto Louis Stevenson, ‘viajar cheio de esperança e melhor que chegar’, nunca pareceu mais verdadeira do que agora, em nosso mundo fluido e liquidificado”.

Bauman faleceu em 9.1.2017, em Leeds, na Inglaterra, onde vivia. Lúcido até o final, estava ultimando seu livro “Estranhos à nossa porta”, com abordagem sobre os problemas migratórios na Europa. Por sinal, escreveu mais de setenta livros, o que significa ter produzido mais do que um por ano, desde o início de sua vida acadêmica.

Foi por isso que não poderia deixar de ler “Bauman – uma biografia”, de Isabela Wagner, publicado pela Zahar, detentora da obra do filósofo/sociólogo/psicólogo Zygmunt Bauman.

É uma leitura necessária a quem acha que sofre e não imagina o que foi para um ser humano de origem judaica, ainda que não professasse a religião e não soubesse falar iídiche ou hebraico, viver na Polônia entre 1925 e 1968. O drama de famílias como a de Zygmunt Bauman deveriam servir para eliminar do mundo qualquer preconceito étnico, para reforçar a consciência de cidadania planetária, única resposta consequente para que a humanidade tenha futuro.

Lamentavelmente, o recrudescimento da exclusão, da descriminação, o aumento da invisibilidade e das desigualdades, mostra que há muito a percorrer, para chegar ao ponto de partida. Pois o retrocesso é evidente.

Bauman enfrentou perseguição, injustiças e sofreu com elas. Não exerceu a autocensura, o que o afligiu ainda mais, diante da situação polonesa na década de sessenta. Como diz Isabela Wagner, ao escrever com honestidade intelectual, “ele tinha resolvido ignorar a advertência de Edward Lipinski: ‘Antes de tudo, não pensar’. Bauman cita o amigo, dizendo: “Se não consegue parar de pensar, então não fale! E se não conseguir parar de falar, não escreva! Se não conseguir parar de escrever, nunca, nunca publique! Em circunstância alguma!”.

Há um custo, às vezes exageradamente alto, cobrado a quem resolve pensar, falar e escrever conforme pensa. Isso vale para todas as épocas. Mas algumas, como aquela em que vivemos, são ainda mais cruéis do que outras.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.