‘Temos uma geração de meninas em que o próprio Estado é infrator por omissão’, diz Cármen

‘Temos uma geração de meninas em que o próprio Estado é infrator por omissão’, diz Cármen

Para ministra do Supremo Tribunal Federal, 'desde que seja uma moça boazinha, uma mulher boazinha, está tudo muito bem'

Rayssa Motta e Paulo Roberto Netto

23 de julho de 2020 | 18h55

A ministra Cármen Lúcia. FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse nesta quarta-feira, 22, que o Estado brasileiro tem responsabilidade pelos casos de violência contra a mulher que explodiram na pandemia.

Em abril, quando o isolamento social já durava mais de um mês, a quantidade de denúncias de violência doméstica recebidas no canal 180 deu um salto: cresceu quase 40% em relação ao mesmo mês de 2019, segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH).

“Chegamos a uma pandemia, que sempre fica parecendo que neste momento aumentou a violência, porque o espaço físico aumentou – para quem tem espaço físico, porque há mulheres que estão nas ruas. Temos uma geração de meninas em que o próprio Estado é infrator por omissão, porque não colocou nas escolas, porque não deu condições para que essa sociedade mudasse”, afirmou em uma transmissão ao vivo organizada pelo Instituto de Estudos Jurídicos e Aplicados (IEJA).

Para a ministra, que chegou a presidir o Supremo Tribunal Federal no biênio de 2016-2018, a sociedade brasileira é ‘desigual e extremamente machista’ e as mulheres continuam sendo vítimas de preconceito, mesmo alcançam cargos de comando.

“Desde que vocês sejam uma moça boazinha, uma mulher boazinha, está tudo muito bem. Mas vai ser uma juíza de tribunal, uma ministra de Estado, uma professora de sala de aula, uma reitora, vai ser uma empresária que se assenta e tem que falar muito mais alto. Temos que trabalhar mais que os homens para mostrar que somos iguais”, disse.

Cármen Lúcia também lamentou a necessidade de discutir direitos fundamentais que ‘pelo marco civilizatório da humanidade’ já deveriam ter sido alcançados.

“Talvez a minha geração, entre os erros que cometeu, e cometemos muitos, um deles deve ter sido o de achar que nós já tínhamos conseguido alguns espaços e, portanto, os direitos fundamentais, os direitos humanos, eram um marco civilizatório que não podia voltar atrás. E agora nós vemos que democracia é uma planta que todos dias a gente tem que cultivar”, afirmou.

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