Temos que cuidar do nosso cérebro!

Temos que cuidar do nosso cérebro!

Thais Villa*

09 de maio de 2021 | 08h15

Thais Villa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Cerca de 20% das mulheres e 10% dos homens sofrem com a enxaqueca, uma doença neurológica crônica que se manifesta como dor de cabeça latejante associada a vários outros sintomas.

Dor de cabeça não é uma doença específica, mas um sintoma que pode acontecer em várias enfermidades como gripe, meningite, trauma na cabeça, até tumor cerebral. Já a enxaqueca é uma doença, mais debilitante em adultos até os 50 anos de idade.

Os gatilhos, como chamamos, para que a crise de enxaqueca se instale, são múltiplos. E gatilhos, nestes tempos de pandemia, não faltam. Por isso, precisamos ficarmos atentos à dor de cabeça e às formas de prevenção da enxaqueca – aliás, maio é convencionalmente um mês dedicado à conscientização sobre a dor de cabeça.

Para a enxaqueca, a ansiedade, o estresse, a angústia, a rotina inadequada de sono são fatores que disparam a dor. Somam-se a estes “gatilhos”, o medo do coronavírus em si, as preocupações financeiras, a sobrecarga de trabalho e o isolamento prolongado. Com tudo isso, observamos um aumento de frequência e intensidade das crises de enxaqueca, uma doença neurológica e genética, que tem na dor de cabeça seu sintoma mais conhecido.

Essa é uma doença muito mais comum do que se imagina e ocupa a sexta posição entre as mais incapacitantes, segundo a Organização Mundial de Saúde. É também uma das principais causas de absenteísmo e queda de produtividade. É considerada crônica quando se manifesta em pelos menos 15 dias por mês. O diagnóstico é clínico, isto é, nenhum exame é capaz de identificar a doença.

Na infância, a enxaqueca ocorre de forma semelhante em ambos os sexos. A partir da adolescência, as mulheres costumam ter crises mais graves e frequentes do que os homens devido ao gatilho hormonal do ciclo menstrual. Depois dos 50 anos, volta a afetar da mesma maneira o sexo masculino e o feminino.

As crises podem durar de quatro a 72 horas. A dor de cabeça moderada a severa é latejante e atinge a testa e as têmporas, podendo descer até o pescoço e os ombros. Pode vir acompanhada de intolerância a luz, barulhos e cheiros; sensação de má digestão refluxo, náuseas e, às vezes, vômitos.

Cerca de 30% dos pacientes apresentam enxaqueca com aura, um sintoma visual que faz a pessoa enxergar pequenos brilhos ou luzes. A própria visão fica embaçada em certas ocasiões.

Além dos fatores que desencadeiam as crises de enxaqueca que já mencionamos, outros gatilhos importantes são o jejum prolongado, a pouca ingestão de água, o sedentarismo e o consumo em excesso de cafeína, bebidas alcoólicas e alimentos gordurosos e muito condimentados.

Nesses tempos atuais, o medo e as incertezas provocados pela pandemia têm contribuído para aumentar as crises de enxaqueca. O que estamos vendo hoje nos consultórios são pessoas que antes tinham episódios esporádicos e agora são acometidas quase diariamente de dores de cabeça e outros sintomas associados à doença.

Para piorar, as crises acirram a ansiedade, as oscilações de humor, a irritabilidade, a angústia e outros problemas mentais. Consequências nada positivas em um momento tão desafiador.

A Covid-19 também contribuiu para o aumento da automedicação. Por medo da infecção pelo coronavírus, muitas pessoas deixam de procurar ajuda médicas e tentam minimizar os sintomas tomando anti-inflamatórios ou analgésicos sem indicação. Acontece que, se a pessoa ingerir tais medicamentos mais de duas vezes por semana pode ser vítima da “dor de cabeça de rebote”, uma consequência do excesso de medicamentos e do aumento progressivo das doses necessárias para alívio das crises. O efeito rebote costuma agravar os sintomas e tornar os incômodos mais frequentes e severos.

A boa notícia é que a enxaqueca pode ser controlada. Com remédios adequados sob prescrição médica, a ocorrência de crises é espaçada e a intensidade dos sintomas, amenizada. Segundo o Consenso Latino-Americano para as Diretrizes de Tratamento de Migrânea Crônica e o Consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia sobre o Tratamento da Migrânea Crônica, os tratamentos se dividem basicamente em duas vertentes:

• Tratamento agudo: serve para reduzir a intensidade da dor no momento da crise e amenizar sintomas associados. A escolha do medicamento será definida por um neurologista caso a caso, incluindo tratamento hospitalar em pronto-socorro.

• Tratamento preventivo: seu objetivo é diminuir ou evitar a recorrência das crises. Pode incluir fármacos orais, como neuromoduladores e betabloqueadores, e injetáveis, como a toxina botulínica. Nesse caso, a aplicação é feita no trajeto dos nervos na cabeça e pescoço, impedindo o processo inflamatório e a liberação de neurotransmissores que levam os sinais de dor para o cérebro. Em média, cada aplicação tem duração de três meses e é possível retornar à rotina no mesmo dia.

Muitos gatilhos das crises de enxaqueca estão relacionados aos hábitos de rotina. Manter uma alimentação balanceada, sono adequado e atividades físicas equilibradas favorecem o bem-estar de quem sofre com a enxaqueca. O paciente deve ainda evitar luzes intensas, o consumo excessivo de álcool e ruídos altos, além de manejar o estresse, ainda mais durante a pandemia.

*Thais Villa, neurologista e chefe do Setor de Cefaleias da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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