Temos noção das consequências?

Temos noção das consequências?

José Renato Nalini*

22 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Somos livres nas nossas escolhas e reféns de suas consequências. Isso ocorre de maneira muito evidente quando nos propomos a eleger aqueles que, em nosso nome, regerão os destinos deste país.

Que inveja santa de um estadista como Barack Obama, que em Glasgow atraiu a atenção de todos os presentes à malograda COP-26, ao exortar os jovens a transformarem a raiva, a indignação e a ansiedade em ações e, principalmente, em votos. “Você pode não gostar da política. Mas não a ignore”.

Por ignorar a política, por não acompanhar o funcionamento das Câmaras Municipais, das Assembleias Legislativas, da Câmara Federal e do Senado, é que assistimos a conchavos, falcatruas, o descarado “toma lá-dá cá” em que se converteu a política partidária brasileira.

Todos os nossos problemas derivam da educação. Um dos objetivos desse “direito de todos”, que é “dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade”, como está escrito no artigo 205 da Constituição da República, é capacitar o educando para o exercício da cidadania. Essa condição do “direito a ter direitos” começa com uma face ativa, que é a escolha dos representantes.

Sabemos que a representação está praticamente falida. Ninguém se considera representado. O que mais existe é o descaramento da busca exclusiva do próprio interesse, nunca a sadia gestão do interesse comum. Mas é o que se tem. Se não houver participação, nunca se conseguirá extirpar da Nação as malévolas praxes entranhadas desde o achamento deste continente pela esquadra lusa.

A questão ambiental é a mais grave com que se defronta a humanidade. Prestes a sucumbir ao desastre insano da destruição do verde, poluição desbragada, produção crescente de resíduos sólidos venenosos, uso criminoso de combustíveis fósseis e a hipocrisia de se acreditar que “está tudo bem”. Como se promessas vãs, mentirosas e em flagrante contraste com a realidade, viesse a produzir eco na consciência dos poucos que reconhecem a gravidade da situação.

Pois Obama citou a atuação política dos jovens como a primeira e melhor maneira de fazer a diferença. “Vote como se sua vida dependesse disso. Não adote uma postura crítica com a política. Não teremos intervenções pelo clima vindas dos governantes, se eles não sentirem a pressão dos eleitores”.

O erudito, ético e consciente ex-Presidente americano recordou-se do conselho que sua mãe lhe dava, quando era adolescente e já se revoltava diante de injustiças: “Mãos à obra, mexa-se, envolva-se e mude o que precisa ser mudado”. Algo como: seja você a diferença que quer nos procedimentos políticos. Vede o acesso dos corruptos, dos omissos, dos hipócritas, dos mentirosos.

Há pessoas de bem – por incrível possa parecer – no universo da política partidária. É que sobram os perversos, os maus, os fingidos, falsos e interesseiros. E se a juventude se omitir, eles continuarão a proliferar. A praga é a mesma, seja qual for o ângulo que se puder encarar. A podridão é que se propaga, não a higidez ética. Componente obrigatório da miséria humana.

Obama também aconselhou a um exercício forte de pressão sobre as empresas que não se comportarem eticamente, desrespeitarem o ambiente ou não atuarem para preservá-lo. Também é importante desmascarar aqueles que se passam por cientistas e espalham, quais Pollyanas do mal, inverdades sobre a realidade brasileira. Nunca se exterminou tanta floresta como nestes últimos anos. Em plena COP-26, divulgou-se o índice de desmatamento na Amazônia! Mais um recorde melancólico. Será que alguém consegue acreditar no discurso oficial?

Convencer os céticos e os que não acreditam na catástrofe porque interessados na política de terra arrasada. No dizer de Obama, “não adianta pregar aos convertidos nem só se juntar aos que já acreditam na crise do clima. É preciso ouvir os resistentes, entender suas preocupações e encontrar as formas de que eles sejam menos atingidos pelas mudanças necessárias. Barack não tem medo dos cínicos, pois, para ele, “o cinismo é o recurso dos covardes”. E eu acrescento: dos mal intencionados. Daqueles que são pagos pelos detratores da natureza para legitimar os desmandos que eliminam a possibilidade de uma continuação da experiência humana em um planeta habitado por criaturas que não respeitam seu único habitat.

Quantas vezes será preciso dizer que não há mais tempo a perder? A contagem decrescente já começou há muito. “O combate à crise climática não se trata só de números e ciência, mas de política, cultura, moralidade e trabalho conjunto”.

Confiemos na juventude brasileira. Ela sabe que se continuarmos a patinar, estaremos em acelerada marcha-a-ré, rumo ao caos. Nossa geração falhou nas escolhas. Ela tem a oportunidade de acertar. Transmitamos a todos, a noção das consequências de nossas opções.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.