Temer vê ‘crime perfeito’ de delator e pede suspensão de inquérito

Temer vê ‘crime perfeito’ de delator e pede suspensão de inquérito

Em pronunciamento, presidente voltou a colocar em dúvida gravações de Joesley Batista e ganhos financeiros da JBS com o vazamento da delação

Vera Rosa e Tânia Monteiro

20 Maio 2017 | 15h47

Michel Temer. Foto: Dida Sampaio/Estadão

BRASÍLIA – No segundo pronunciamento feito em dois dias, o presidente Michel Temer disse neste sábado que entrou com petição no Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir a suspensão do inquérito contra ele por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça. Sem esconder a irritação, Temer acusou o empresário Joesley Batista – dono da JBS que gravou conversa com ele – de cometer o “crime perfeito” e sugeriu anuência do Ministério Público numa gravação “fraudulenta”.

Para embasar suas declarações, o presidente afirmou que perícia da gravação de seu diálogo com Joesley feita pelo jornal Folha de S. Paulo mostra que a conversa foi adulterada e teve mais de 50 edições. A pedido do Estado, o perito Marcelo Carneiro de Souza identificou “fragmentações” em 14 momentos do áudio.

Temer criticou o fato de Joesley – chamado por ele de “falastrão exagerado” – estar “livre e solto, passeando pelas ruas de Nova York”, sem qualquer punição. “Ele não passou nenhum dia na cadeia, não foi preso, não foi julgado, não foi punido e, pelo jeito, não será. Cometeu, digamos assim, o crime perfeito. Enganou os brasileiros e agora mora nos Estados Unidos. Graças a essa gravação fraudulenta e manipulada, especulou contra a moeda nacional.”

Em 12 minutos de pronunciamento, o presidente desqualificou o delator ao lembrar que a JBS comprou US$ 1 bilhão na véspera do vazamento do áudio da delação. O preço da moeda foi às alturas no dia seguinte e Joesley vendeu as ações antes da queda da Bolsa, provocada pela instabilidade do governo. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) está investigando a operação.

“O Brasil, que já tinha saído da mais grave crise econômica de sua história, vive agora dias de incerteza”, afirmou Temer. “Houve grande planejamento para realizar esse grampo, enquanto criminosos fugiam do Brasil. Essa gravação clandestina foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos.”

O pedido de abertura de inquérito contra Temer foi feito pela Procuradoria-Geral da República e autorizado pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF. Além do presidente, são alvos da investigação o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) e o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), que foi filmado com uma mala de dinheiro.

Para Temer, as “incoerências” entre o áudio divulgado e o teor do depoimento do dono da JBS comprometem toda a lisura do processo jurídico. A defesa do presidente, comandada pelo criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, pede a suspensão do inquérito no Supremo até que as gravações sejam avaliadas.

Com o agravamento da crise política e a ameaça de debandada de partidos da base aliada, Temer decidiu dar respostas rápidas às delações premiadas da JBS. Nos últimos dias, o presidente repetiu a aliados do PSDB, do DEM e do próprio PMDB que não tem nada a esconder e que está sendo vítima de uma “conspiração”.

Temer estava acompanhado no pronunciamento pelos ministros Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo) e Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional), além dos deputados Carlos Marun (PMDB-RS), Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) e Darcísio Perondi (PMDB-RS). O chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que já estava em Porto Alegre (RS), voltou, mas não chegou a tempo de aparecer na foto.

Vestido de forma informal, sem gravata, o presidente citou a melhoria dos indicadores econômicos e as reformas em curso. Disse, ainda, que as delações contra ele tentam macular não só sua reputação moral como “invalidar” o Brasil. Temer citou trechos do depoimento de Joesley, na tentativa de provar que o empresário estava insatisfeito com o governo, reclamando do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, do Cade e do BNDES.

“O governo não atendeu a seus pedidos. Não se sustenta, portanto, a acusação pífia de corrupção passiva”, insistiu o presidente.

ALPISTE E GRAMÁTICA

Na conversa com Temer no Palácio do Jaburu, em 7 de março, Joesley disse que estava “de bem” com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso pela Lava Jato. “Tem que manter isso, viu?”, respondeu Temer. Em seguida, Joesley acrescentou: “Todo mês”. Parte do diálogo, porém, é inaudível.

O empresário também contou a Temer que estava comprando um procurador e “dando conta” de dois juízes para barrar uma investigação sobre empresa do grupo J&F, holding que administra a JBS. “Ótimo”, afirmou Temer. À Procuradoria-Geral da República, Joesley disse que, a pedido do presidente, pagou a ele R$ 4,7 milhões de 2010 a março de 2017.

Já o diretor da JBS Ricardo Saud disse à Procuradoria que Joesley e Temer tinham uma senha em comum para se referir às mesadas pagas a Cunha e ao operador Lúcio Funaro na cadeia. “O código era ‘tá dando alpiste pros passarinhos? Os passarinhos tão tranquilos na gaiola?”

Ao afirmar que houve “falso testemunho” de seus delatores à Justiça, o presidente lembrou da gramática, que tanto aprecia. “Chegam ao desplante de me atribuir falas, frases ou senhas ou palavras chulas que jamais cometeria. Atentam contra meu vocabulário e minha inteligência”, disse ele.