Temer disse que coronel Lima era ‘homem de sua confiança’ em almoço no Jaburu, revela delator

Temer disse que coronel Lima era ‘homem de sua confiança’ em almoço no Jaburu, revela delator

Empresário José Antunes Sobrinho, que fechou acordo de colaboração premiada com a Operação Lava Jato, contou que no encontro, em 2014, o então vice-presidente lhe disse que o militar reformado da PM de São Paulo 'seria apto a tratar de qualquer tema'

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Ricardo Brandt/SÃO PAULO e Fabio Serapião/BRASÍLIA

22 de março de 2019 | 06h30

Em depoimento à força-tarefa da Operação Lava Jato Rio, o empresário José Antunes Sobrinho, delator da investigação, relatou que, durante um almoço no Palácio do Jaburu, no primeiro semestre de 2014, o então vice-presidente Michel Temer (MDB) lhe disse que o coronel reformado da Polícia Militar João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, ‘seria apto a tratar qualquer tema, sendo homem de sua confiança’. O delator contou que o ex-ministro Moreira Franco (Minas e Energia) também estava no almoço.

Temer e Moreira Franco e o coronel Lima foram presos nesta quinta-feira, 21, na Operação Descontaminação – desdobramento da Lava Jato. Os aliados são suspeitos de receberem propina sobre as obras da usina de Angra 3.

José Antunes Sobrinho, ligado à empreiteira Engevix, prestou depoimento em 25 de fevereiro. “Gostaria de ressaltar um almoço que teve no âmbito do Palácio do Jaburu, no primeiro semestre de 2014, com Moreira Franco e Michel Temer; que no decorrer do almoço entre amenidades que eram conversadas, Michel Temer falou que o coronel Lima ‘seria apto a tratar qualquer tema, sendo homem de sua confiança’; que o colaborador entendeu a referida frase como sendo um aval para que atendesse o que fosse solicitado por Lima”, relatou.

“Moreira Franco não era pessoa íntima de Lima; que o colaborador acredita que no citado almoço Temer deu a real expressão de sua relação com Lima a Moreira Franco; que após o almoço todas as partes envolvidas tiveram a real dimensão dos seus papeis a fim de viabilizar a vantagem financeira solicitada por Lima ao PMDB.”

O empresário se referiu a um suposto pedido do coronel, no segundo semestre de 2013, por ‘contribuição financeira ao PMDB’. Naquele ano, contou José Antunes Sobrinho, as relações entre ele e Lima ‘se intensificaram bastante’.

O delator disse ao Ministério Público Federal que percebeu que o coronel tinha ‘uma ascendência muito forte’ sobre o então presidente da Eletronuclear, Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva.

“Em certa oportunidade, o empreendimento necessitava de aditivo contratual para se adequar à realidade econômica; que o citado aditivo não estava sendo assinado no tempo devido e que o colaborador ouviu de Lima: ‘se o Othon não resolver o assunto rápido, farei gestões para retirá-lo da presidência da Eletronuclear; que Othon sabem a quem ele deve o cargo’; que Lima se referia a Michel Temer”, afirmou José Antunes Sobrinho.

“Lima deixava claro que Othon Pinheiro foi nomeado em razão da influência do então vice-presidente Michel Temer; que a relação entre Lima e Michel Temer era bastante clara.”

José Antunes Sobrinho declarou que foi apresentado a Temer pelo coronel Lima no segundo semestre de 2013. O delator cintou que esteve no escritório político do emedebista ‘próximo à Praça Panamericana em São Paulo’.

“Na mesma época, Lima informou ao colaborador que era necessário que a Engevix fizesse contribuição financeira ao PMDB sem especificar valores; que ressalta que o referido pedido não se deu na presença de Temer; que, ao ouvir o pedido de Lima, o colaborador respondeu que não teria condições de fazer qualquer tipo de contribuição ao partido, em razão do contrato de Angra 3 não ter muita margem de lucro”, contou.

O empresário disse que ‘sugeriu que se buscasse nova alternativa para viabilizar o pagamento’. Uma delas, contou, seria firmar um contrato entre o Governo Federal e a Engevix ‘na área de infraestrutura aeroportuária’.

“O colaborador sugeriu a Lima dois projetos, de responsabilidade da Secretaria de Aviação Civil, na época comandada por Moreira Franco: 1) a construção do Centro Nacional de Aviação (empreendimento que implicaria a construção de prédio para a Infraero, Anac e Secretaria de Aviação Civil), que custaria aproximadamente R$ 250 mil. 2) Contrato de consultoria para definição do futuro da área aeroportuária no Brasil, no valor estimado de R$ 16 milhões”, relatou.

“As duas sugestões foram desenvolvidas no decorrer de 2014 pelo ex-ministro Moreira Franco.”

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