‘Tem que falar com a dona Marisa’, diz Lula evasivo sobre venda de imóvel

‘Tem que falar com a dona Marisa’, diz Lula evasivo sobre venda de imóvel

Ex-presidente nega irregularidades na aquisição de imóvel no Guarujá que pertenceu à Bancoop e passou para a empreiteira OAS e atribui à ex-primeira dama responsabilidade pelo negócio

Fausto Macedo, Julia Affonso, Ricardo Brandt, Bruno Ribeiro e Luiz Vassallo

11 de maio de 2017 | 05h00

Lula. Foto: Reprodução

O ex-presidente Lula declarou ao juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, que fale com a ex-primeira dama Marisa Letícia – morta em janeiro de 2017 – ao ser questionado sobre a transação de compra de cota de um imóvel que pertenceu à Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop) e passou para o controle da empreiteira OAS.

“Tem que falar com a dona Marisa”, disse Lula após ouvir sucessivas indagações de Moro sobre o polêmico apartamento situado no Guarujá, alvo de denúncia criminal contra o petista.

Questões afetas ao imóvel do Guarujá tomaram praticamente a primeira parte do interrogatório do ex-presidente nesta quarta-feira, 10.

“O sr. ex-presidente foi consultado a respeito da realização da venda já que dizia respeito à sua cota?”, indagou o juiz.

“Dr. Moro, como eu não requisitei apartamento e não recebi apartamento eu não tinha porque ser informado. Não fui informado, não fui informado.”

“Sua esposa foi informada?”, insistiu Moro.

“Eu não acredito, parece que esse apartamento, parece foi dado em garantia umas cinquenta vezes.”
Com base na denúncia do Ministério Público Federal, o juiz seguiu com o interrogatório. Ele anotou que em um expediente do Ministério Público do Estado de São Paulo consta declaração da OAS Empreendimentos de que, em agosto de 2009, o Condomínio Solaris, no Guarujá, era composto por 102 unidades autônomas e que todas as unidades haviam sido vendidas. “O sr. saberia explicar por que a OAS teria declarado isso se o sr. afirma que não havia exercido opção de compra?”, perguntou o juiz.

“Eu fiquei sabendo que apenas em 2012, ou final de 2011, por causa do meu câncer, que dona Marisa tinha autorizado a OAS vender o apartamento. Isso eu vi aqui no depoimento não sei de quem, mas eu vi isso aqui”, respondeu Lula.

“A afirmação do Ministério Público em 2011 é que todos os apartamentos tinham sido vendidos”, seguiu Moro.

“Então deve ter vendido o apartamento, tem que falar com a dona Marisa”, disse o ex-presidente.
Moro perguntou a Lula se ele se recorda quanto foi pago no total pelo apartamento. “Não me lembro, também tá tudo declarado no meu Imposto de Renda e já deve ter aqui no processo porque isso tem sido falado mais do que notícia ruim.”

Segundo o juiz, o Ministério Público Federal informou nos autos que até setembro de 2009 foram pagos R$ 209 mil. “Saberia dizer se foi isso, aproximadamente?”, perguntou o juiz.

“Não sei”, disse Lula, evasivo.

“Sabe dizer se depois que a OAS assumiu o empreendimento, em outubro de 2009, foram feitos novos pagamentos pelo apartamento?

“Acho que não.”

“Sabe explicar por que, diferentemente de todos os demais cooperados da Bancoop que em 2009 tiveram que optar pela continuidade da compra, celebrando contratos com a OAS, ou pedindo devolução do dinheiro, o sr. e sua esposa não tiveram que fazer essa escolha?”, insistiu Moro.

“Tenho uma hipótese, dona Marisa pode não ter recebido convite prá participar da assembleia”, disse Lula.

“Essa é apenas uma hipótese?”, prosseguiu o juiz.

“É a única que eu posso imaginar.”

“Nunca lhe foi informado?”

“Eu vou repetir, eu fiquei sabendo do apartamento no ato da compra que era um investimento e fiquei sabendo em 2013 quando eu fui procurado (por Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS que delatou o ex-amigo Lula).

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DO EX-PRESIDENTE LULA, CRISTIANO ZANIN MARTINS

“D. Marisa Letícia jamais cometeu qualquer ilegalidade ao longo da vida e sempre mereceu o respeito de todos. Apesar disso, uma denúncia descabida da Força Tarefa, acolhida pelo Juízo da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, imputou a ela fatos inexistentes, no caso do triplex do Guarujá”.

Todos os atos de D. Marisa foram absolutamente legais e nunca poderiam justificar nem a denúncia nem a ação penal contra ela. São fatos de pleno conhecimento dos procuradores, pois constam dos autos do processo desde o início. No depoimento desta quarta (10), Lula simplesmente reafirmou a verdade.

Causa assim estranheza que o depoimento do ex-Presidente ao Juízo de Curitiba, no que tange a sua esposa, tenha recebido os comentários da Força Tarefa que a imprensa explorou hoje. O testemunho de Lula, ontem, não diverge do que ele e nós, seus advogados, já vínhamos afirmando há mais de um ano.

O que causa, sim, espanto é que até hoje o juiz se recusa a inocentar sumariamente d. Marisa Letícia, como determina expressamente a lei em caso de falecimento. Mais uma prova do lawfare que se pratica contra o ex-Presidente Lula e que não respeita sequer a memória de sua esposa.

Cristiano Zanin Martins

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