‘Tem deputado que está na Câmara para defender construtoras e bancos’, diz Argôlo a juiz da Lava Jato

Acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, ex-deputado disse que existem parlamentares de 'vários perfis' e que fez negócios com o doleiro Youssef, mas 'tinha que chorar' para receber dele

Redação

11 Setembro 2015 | 06h00

Luiz Argôlo foi preso em abril. Foto: Ed Ferreira/Estadão

Luiz Argôlo foi preso em abril. Foto: Ed Ferreira/Estadão

Por Fausto Macedo, Mateus Coutinho, Julia Affonso e Ricardo Brandt

Réu da Operação Jato por corrupção e lavagem de dinheiro, o ex-deputado Luiz Argôlo (ex-PP e atualmente afastado do Solidariedade – BA) declarou à Justiça Federal no Paraná que “na Câmara se elegem deputados com vários perfis, tem deputado que está lá para defender as bandeiras das igrejas, que está lá para defender as entidades de classe, e tem deputado que está lá para defender empresas, construtoras e bancos”.

Argôlo, que está preso em Curitiba, foi interrogado pelo juiz federal Sérgio Moro. Praticamente todo o depoimento do ex-deputado se concentrou sobre uma figura emblemática do esquema de corrupção e propinas que se instalou na Petrobrás entre 2004 e 2014, o doleiro Alberto Youssef.

VEJA A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE ARGÔLO AO JUIZ SÉRGIO MORO:

Em delação premiada, Youssef relatou pagamentos de valores ilícitos para muitos deputados, entre eles Argôlo. O doleiro chamava Argolo de ‘bebê johnson’ porque o então deputado lhe pedia dinheiro insistentemente e ‘chorava o tempo todo’.

A força-tarefa da Operação Lava Jato constatou que o então deputado esteve 52 vezes em um escritório do doleiro, na Avenida Sâo Gabriel, em São Paulo, entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012. E mais 26 vezes em outros escritório de Youssef, na rua Renato Paes de Barros, entre março de 2013 e fevereiro de 2014.

Os investigadores constataram ainda que o então deputado recebeu R$ 1,24 milhão do doleiro entre setembro de 2012 e janeiro de 2014, em 17 pagamentos.

Ao juiz Moro, Argôlo afirmou que teve dois negócios com o doleiro, um envolvendo a venda de um terreno por R$ 900 mil em Camaçari (BA) e outro a compra de um helicóptero.

Para a intensa troca de contatos com o doleiro, o ex-deputado apresentou a seguinte versão. Ele disse que o doleiro nunca pagou o que lhe devia, por isso cobrava Youssef com frequência.

“Ele tinha consciência de que as coisas não eram acertadas pontualmente. Eu tinha que chorar. Excelência, Alberto Youssef tem algo, uma facilidade como comerciante muito grande, se vende muito bem do ponto de vista empresarial. Mas todas as tratativas financeiras dificilmente ele conseguia cumprir, sempre tinha dificuldade, dizia ‘passa a conta que eu deposito’ e não depositava, ‘aguarde que vou sacar e lhe levo em dinheiro, vou mandar lhe entregar’ e não entregava, ‘vou mandar um pagamento único na conta de seu irmão’ e não fazia. Ele não cumpriu as diversas negociações, não formalizou, não concretizou o que se falava. Daí a insistência.”

Ele disse que conheceu Youssef no apartamento em Brasília do deputado Mário Negromonte (PP/BA), conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia, no final do ano de 2011, quando se preparava para tomar posse no seu mandato de parlamentar. “Ele (Youssef) se apresentava como um investidor.”

Segundo Argôlo, o doleiro o apresentou ao empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia. “Ele (Youssef) dizia que era sócio do Ricardo Pessoa, depois eu soube que na verdade o Ricardo Pessoa tinha um hotel e o Alberto Youssef tinha uma cota no hotel.”

Argôlo confirmou que recebeu dinheiro em espécie que lhe foi entregue por Rafael Ângulo Lopez, apontado como carregador malas do doleiro.

A força-tarefa descobriu que foram entregues R$ 600 mil em dinheiro vivo para o então deputado, em 27 de setembro de 2012. “Não me recordo o valor, excelência”, esquivou-se o ex-deputado. Ele declarou que o dinheiro foi usado para ‘pagar contas do irmão Manoelito’. “Eu não conheci Alberto Youssef nesse contexto de Petrobrás. Uma vez ele disse que ajudava alguns parlamentares na eleição através de doação na campanha.”

O juiz perguntou. “Ele ajudou o sr.?”

“Não, não, nunca recebi até porque quando eu o conheci eu já estava eleito. Os únicos negócios que fizemos foi o do terreno e o do helicóptero. Mas nunca chegava a finalizar, tinha dificuldade em amarrar esse tipo de conversa (com Youssef), eu insistia, insistia, era um verdadeiro banho. Ele protelava.”

Em sua delação premiada, o doleiro afirmou que o PP mantinha o domínio dos negócios da Diretoria de Abastecimento da Petrobrás, então sob comando do engenheiro Paulo Roberto Costa. Ele apontou parlamentares da sigla que recebiam propinas. Afirmou que Argôlo reclamava sempre que o PP o deixava de fora.

“Eu sempre relatava a ele (Youssef) a falta de oportunidade que o partido não me dava, eu era o mais jovem do PP, nunca me davam inserção na TV, não participava das emendas dentro do partido, um sistema muito conservador. Eu me queixava nesse sentido. Nunca recebi propina de Alberto Youssef, nunca vi dólar na mão dele. Não fiz campanha custeada por empresa contratada pela Petrobrás.”