Tem de ser para valer

Tem de ser para valer

José Renato Nalini*

19 de março de 2022 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Qual a razão de se inserir no tema dos negócios a cultura ESG? Não pode ser modismo, nem subterfúgio para a continuidade nas práticas lesivas da natureza e, portanto, causadoras da potencialidade – não remota – de interrupção definitiva da experiência humana sobre o planeta.

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A ciência enxerga com lupa aquilo que acontecerá para esta humanidade tão impiedosa para com o único ambiente de que dispõe para viver. Há tempos anuncia o exaurimento dos recursos naturais e os sombrios horizontes que se avizinham mais rapidamente do que se poderia supor. Só que existe o malefício da política profissional: aquilo que deveria servir para coordenar a convivência, tornou-se um território exclusivo dos interesseiros, daqueles que se propõem a defender o bem comum, mas perseguem a satisfação da própria cobiça.

Quando se verifica a falência da Democracia Representativa, incapaz de responder às aspirações comunitárias, é hora de protagonismo por atores diversos. Universidade, empresariado, Terceiro Setor, sociedade civil e lideranças individuais têm de assumir o compromisso de levar a sério as ameaças que rondam o mundo.

Uma das fórmulas encontradas foi elaborar o conceito ESG, da sigla em inglês, que para nós seria ASG. Ambiente, Social e Governança. Reverter a sanha assassina do verde e da biodiversidade, cuidar de ao menos reduzir a profunda desigualdade social existente entre os incluídos e os excluídos do banquete capitalista e adotar uma governança corporativa capaz de atender, simultaneamente, ao tríplice objetivo.

Um bom sinal foi o estabelecimento do ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bolsa de Valores. Em fevereiro de 2022, pela primeira vez, foram divulgadas as notas obtidas pelas companhias que formam essa carteira. Dentre as setenta e três empresas inscritas, quarenta e seis tiveram avaliação suficiente para ingressar na carteira neste 2022. O primeiro lugar no ranking coube à EDP – Energia do Brasil, seguida pelas Lojas Renner, Telefônica do Brasil, CPFL Energia, Natura, Klabin, Itaú, Ambipar, Suzano e Engle Brasil Energia.

Empresas que também ostentam tal “selo” em sua publicidade não lograram acesso ao fechado clube dos que atendem completamente às exigências no tríplice eixo de avaliação. Assim, quem poluiu, ainda que por acidente, não poderia mesmo estar entre as eleitas. Ou quem sucede a grupos envolvidos em esquemas de corrupção, da mesma forma.

Causa estranheza que negócios conhecidos por considerável emissão de gases causadores do efeito estufa possam disputar o ingresso na relação dos que preservam a natureza em lugar de agredi-la. Talvez fosse o caso de exigir de tais empresas, enquanto não alcançarem o grau ótimo de descarbonização, que investissem maciçamente em projetos de reflorestamento, pois o Brasil tem uma carência de mais de um bilhão de árvores.

Também precisa ser corrigida a insuficiência dos critérios de aferição da observância dos requisitos propiciadores da figuração na lista. Tudo ainda é um pouco formal, depende de informações fornecidas pelo próprio interessado. Seria interessante estabelecer um esquema de auditorias e de inspeção a cargo do Terceiro Setor, ou das ONGs ligadas à tutela ambiental. Quando o ISE aceita corporações com evidentes e conhecidos problemas ecológicos, ela desvaloriza a estratégia e desestimula as boas práticas, equiparadas aos detratores da natureza.

É óbvio que a iniciativa é um primeiro passo, que existe exatamente para fazer com que haja compromisso de aprimoramento nas condutas e redução dos entraves postos no caminho de uma empresa amiga da natureza, das pessoas e ainda seja lucrativa, para atrair investimento.

Um bom exemplo é a vinculação dos dividendos à observância dos mandamentos ESG. O bolso é aquilo que mais motiva os homens. Se eles perceberem que só receberão bônus das empresas em que investem se elas se comportarem de maneira adequada às exigências contemporâneas, de certo serão o motor de aceleração da boa conduta.

O importante é fazer com que essa mentalidade se espraie, contamine a população, porque o melhor fiscal da empresa é o consumidor. Quando o consumidor vier a se educar adequadamente, sabendo que o futuro de sua prole se condiciona à responsabilidade do produtor, ele será um bom avaliador. E expelirá do mercado quem continuar a perpetrar tais infrações ambientais, aumentando o nível de desigualdade e se descuidando da governança inteligente.

ESG não é retórica: tem de ser para valer. Não há alternativa.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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