Tem alguém diferente entrando aqui em casa

Tem alguém diferente entrando aqui em casa

Elisa Leão*

06 de maio de 2020 | 03h30

Elisa Leão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Eu que respeitava muito a individualidade de todos e, claro, a minha, agora de uma hora pra outra recebo várias visitas ao longo do dia e ao mesmo tempo, e me vejo entrando na sala, às vezes no quarto e, já aconteceu, na cozinha da casa de colegas de trabalho. E olha que nem somos ou não éramos tão chegados ao ponto de irmos a casa uns dos outros. Isso não acontecia em função da rotina e dos hábitos já estabelecidos. Cada um na sua casa, com sua vida e rotina cotidiana, acostumados e confortáveis.

Agora, como num estalar de dedos, fui jogada para dentro das casas de pessoas queridas, conhecidas e que ficaram um pouco mais próximas. De alguns, fui direto pra cozinha!

Algumas vezes, por causa do som da TV ou das aulas dos filhos ou da reunião do marido, a visita migra de cantinho a cantinho no ambiente doméstico. Nesse movimento é possível receber visitas profissionais nas partes mais íntimas do ninho que era protegido por ser “pessoal”.

Vida pessoal não se mistura com vida profissional! E agora? Vida profissional que entra junto até no banheiro.

Isso me faz pensar sobre os mecanismos de proteção pessoais que sofrem uma reforma e da necessária vulnerabilizacão que é estampa do momento.

Vejo a humanidade entrar em contato com necessidades comuns a espécie.

O corpo é a máquina humana e tem um funcionamento padrão.

Isso é ser humano. Também faz parte da humanidade, sentimentos como alegria, amor, esperança, tristeza, medo, raiva, dentre outros. Somos humanos, somos iguais, sentimos e somos fortes! Somos iguais, vulneráveis e somos frágeis.

Precisamos nos proteger, precisamos nos cuidar, precisamos inclusive de máscaras! Mas elas não nos protegem de tudo. Elas não nos protegem de algumas das mudanças que são exigidas em estado emergencial.

Quase todos os países do planeta estão num momento novo que exige adaptações e com ordens impositivas: mudem! Flexibilizem! Adaptem-se! Arrisquem-se a novas rotinas, aprendam sobre tecnologia, comuniquem-se uns com os outros através da internet, invistam num hobby, comprem menos, falem menos, fiquem mais próximos de suas famílias, ouçam mais, esperem! A máscara não protege a humanidade da inquietante espera e nem das imposições. A ironia é que eu já ouvia sobre a urgência em passar por transformações há muito tempo. Mas, por falta de tempo e em função da rotina estabelecida, eu não investia em muitas dessas imposições.

Se mudança de casa é um transtorno de caixas e trabalho braçal. Mudanças pessoais e mudança de cultura é um transtorno na alma, é exercitar uma parte difícil de ser treinada, é assumir novos lugares pessoais. E como isso é difícil!

Mudar é inseguro por não dar garantias do que virá pela frente. E uma coisa que não tenho nesse momento são garantias. Não posso comprá-las e pagar em prestações. A única alternativa é assumir os riscos e mudar. É preciso acreditar, ter fé e esperança de que a espera vale a pena. É preciso aprender a sair do piloto automático e a estar mais consciente do que pode-se fazer enquanto espera. Às vezes tenho vontade de gritar, mas com máscara tapando a minha boca, isso não vai adiantar.

Reclamar não vai adiantar. Fazer cara feia e brava só vai gerar desconforto na face arranhada pela máscara que não protege da impulsividade.

Agora é usar máscaras e aceitar a própria vulnerabilidade.

Ninguém tem super poderes, o dinheiro não blinda do perigo. Para quem não sabia, a humanidade tem seus limites e agora não dá pra fugir deles, aliás, nunca deu, mas esse momento joga na cara essa realidade nua e crua, sem rodeios.

A humanidade ostenta sua vulnerabilidade, mas enigmaticamente também ensina que algo transcendente une e pode fortalecer. Algo que deveríamos saber, mas a ilusória onipotência tapava, como antolhos, o que foi drasticamente retirado pela realidade, afinal, somos humanos e podemos ter a visão ampla, não somente em linha reta.

Somos, em essência, iguais. A nossa máquina tem a mesma estrutura. Somos gente que sente desamparos, mas com um poder surpreendente de se fortalecer no amor e na cooperatividade. E isso une. O invisível obrigou o uso de máscaras e o invisível possibilitou a união sem máscaras na intimidade de cada um.

Esse invisível está ensinando que não tem necessidade de tantas proteções pessoais que moram na impessoalidade. Que é gratificante receber visitas de braços abertos. Que faz parte do humano ter vulnerabilidades e que se formos conjunto nos tornaremos mais fortes.

A intimidade é importante, escolhas moldam a história pessoal de cada um. O aprendizado também é sobre cultivar as próprias escolhas, além de fazer novas delas que contribuam com o mundo interior o ampliando.

Tem alguém entrando aqui escancarado que a simplicidade facilita os relacionamentos. Que as mudanças são necessárias para a manutenção da vida e que muito da força pessoal está no conjunto.

Bem, mas agora preciso parar e ir para sala, tem alguém diferente entrando aqui em casa.

*Elisa Leão é professora doutora de Psicologia da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, psicóloga clínica e palestrante

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