Tecnologia e o home office: relatos de uma professora

Tecnologia e o home office: relatos de uma professora

Célia Castro*

23 de maio de 2020 | 09h00

Célia Castro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Esta é a minha primeira experiência com o trabalho em casa – ou o que nos acostumamos a chamar de “Home Office”, ou simplesmente a sigla “HO”. É um tempo relativamente curto, motivado pela contingência da pandemia da covid-19, mas uma experiência intensa, que me permite ter e compartilhar algumas impressões sobre ela. Principalmente pelo fato de eu estar em HO por três empresas: uma instituição financeira e duas instituições de ensino superior.

Sou da Geração X. Não sou, portanto, “nativa digital”, mas “migrante digital”. Mais da metade da minha vida pessoal e profissional foi vivida em um contexto analógico, no qual termos como internet, digital, digitalização, home office, e-commerce, devices e outros – grande parte deles na língua inglesa – correlatos não faziam parte do meu cotidiano. E suas aplicações eram exercícios de imaginação em livros e filmes de ficção científica.

Mas, para a minha sorte, a “Era da Informação” e o “Mundo Digital” chegaram. Digo “minha sorte” porque me sinto privilegiada por ter tido a oportunidade de viver esses “dois mundos”. Com os desafios naturais de quem não se pode definir como “nativa digital”, sinto que a convivência com a realidade “pré-digital” foi importante para enfrentar esses desafios.

Explico: por ter visto como as coisas aconteciam – e, em alguns casos, ainda acontecem – na versão analógica, incluindo a busca, a análise e a combinação de dados e informações até podermos gerar conhecimento, sinto, modéstia às favas, que tenho facilidade na “curadoria” desses conteúdos. Pode-me faltar a agilidade das gerações mais recentes e a sua louvável capacidade de experimentar e gerar inovações, mas sobram-me flexibilidade e capacidade de transitar em diferentes ecossistemas. Bem… mas ainda me faltava experimentar o tão alardeado Home Office.

Era só o que me faltava. E não falta mais. No meio da ansiedade e da tristeza das consequências terríveis desta pandemia, dentre as medidas adotadas para minimizar os seus impactos veio a necessidade de se adaptar ao Home Office – daqui para a frente, neste texto, apenas HO.

No início, senti pânico! Nunca pensei em trabalhar em outro ambiente que não fosse o ambiente de trabalho. Sempre pensei que casa é casa e local de trabalho é local de trabalho. Tinha dúvidas quanto à minha capacidade de não misturar as duas realidades, de ter disciplina para não me envolver com distraidores domésticos, de um lado, e de não “levar para a cama” as preocupações naturais do trabalho, de outro.

Além disso, eu tinha medo de não conseguir me entender com a tecnologia, de não conseguir acesso remoto aos conteúdos, sistemas, processos e pessoas da empresa e das faculdades. Via-me numa “distopia” causada pelo meu limitado conhecimento em Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC, desesperada por não conseguir “acessar o e-mail corporativo”, numa fila de espera pelo atendimento do Help Desk, “pagando o maior mico” fazendo perguntas idiotas ao “pessoal da TI”, atrasando as entregas por conta da minha incompetência tecnológica. Fazendo valer as minhas declarações iniciais, antes mesmo de experimentar o HO: “Nem pensar em fazer HO! Não nasci pra isso, e nada substitui o trabalho presencial”. Como todo aquele que nunca comeu jiló e diz que detesta jiló.

Felizmente, minha distopia não se realizou. Confesso que o início foi difícil. Lidar com diferentes plataformas – a empresa e as duas faculdades usam soluções diferentes – e com novas exigências decorrentes da nova forma de trabalho me causou angústia. A primeira semana me pareceu um ano! Senti-me esgotada, mental e fisicamente, apesar de não ter saído de casa. Tive dúvidas se conseguiria dar conta de tantos e-mails, tantas videochamadas, tantos hangouts, aulas em plataformas digitais. E tudo isso, já que sou professora e gestora de equipe, sem descuidar do estado de espírito das pessoas, ainda mais em um momento desafiador como o desta pandemia. No fundo, passado este momento crítico, o que fica realmente é o cuidado que temos com as pessoas, no trabalho, na escola, em casa, na rua.

Outro sentimento que preciso destacar neste relato é a inveja. Como senti inveja das pessoas que, nas redes sociais ou na mídia tradicional, diziam-se entediadas, compartilhavam “dicas” de como aproveitar o tempo em casa, descobrir novas habilidades, novas leituras, descobrir até o seu “eu interior”. Eu ainda não tive tempo para nada disso! Não sei o que é tédio nesta quarentena! Pelo contrário: não tenho tido muito tempo – graças a Deus – para pensar em nada além do meu trabalho. O que eu mais temia, misturar a vida pessoal e profissional, aconteceu de fato.

Mas aí veio uma importante descoberta. O meu temor se transformou em uma constatação positiva. Na verdade, tudo se resume a tempos, movimentos e convenções. As facetas da vida pessoal, profissional, familiar são indissociáveis. Sempre estiveram juntas. As “fronteiras” são criações humanas. Aos poucos, vi que essas tão temidas fronteiras se dissolviam, à medida que também se dissolviam os medos iniciais de não saber lidar com a tecnologia, com as diferentes plataformas e com as exigências dessa nova forma de trabalho. Depois de um mês de HO, os tempos e movimentos se ajeitaram, a confiança em mim voltou, descobri novas formas de interagir com a equipe e com os alunos, aproveitando as funcionalidades das tecnologias de acesso remoto. Descobri que o HO não é um “bicho-papão”. Mais do que isso, comecei a gostar desse “bicho-papão” simpático e que me permitiu continuar a trabalhar e a interagir com as pessoas, mesmo a distância.

Descobri, também, que tenho muito a agradecer. Faço parte de uma ínfima e privilegiada parcela que pôde continuar a trabalhar. Não apenas pelo fato de o meu trabalho – no banco e nas faculdades – envolver soluções intangíveis, baseadas em conhecimento e informação, que facilitam a sua digitalização. Mas principalmente pelo fato de eu ter acesso a tecnologias e a dispositivos, próprios ou colocados à minha disposição por essas organizações. Grande parte da população do Brasil não tem essa possibilidade. Muitos não têm sequer um lugar que possam chamar de “casa”, ou vivem sem condições mínimas de saneamento que lhes permitam tomar os cuidados necessários para não se infectar com o coronavírus e outras enfermidades que já deveriam estar erradicadas. Continuar a trabalhar, se tinham um emprego, é para essas pessoas o contrário da minha temida distopia: é uma utopia.

Ainda estou em HO. Minha equipe toda está em HO, e espero que possamos continuar assim enquanto não tivermos a segurança de podermos nos reunir novamente e de forma presencial. Remotamente, continuamos juntos, no banco e nas faculdades. E tenho muito a agradecer à minha equipe e aos meus alunos por me ajudarem neste período. Se tive bons motivos para perder meus medos e passar a gostar do HO, muito devo às pessoas com quem trabalho e com quem aprendo todos os dias. Vocês, equipe, colegas e alunos, têm feito essa experiência valer a pena.

A imagem que ilustra este artigo é de dois dos meus filhos felinos: meu caçula, o Max, e minha menina, a Catarina, que acompanham-me durante toda a jornada de trabalho em HO. Mais uma das vantagens deste período de trabalho em casa. E mais uma singela forma de lembrar que também existe amor na aparente frieza da distância.

Fiquem em casa. E fiquem bem.

*Célia Castro é mestre em Administração e professora de Gestão de Mercados e Marketing, no curso de Administração da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília

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