Tecnologia e ciência de dados no Direito

Tecnologia e ciência de dados no Direito

Fabio Floh*

14 de maio de 2021 | 03h00

Fabio Floh. FOTO: DIVULGAÇÃO

Tradicionalmente, os advogados se baseiam exclusivamente em sua experiência pessoal para identificar o resultado esperado para seus casos, mas é possível mudar esta lógica, fazendo previsões a partir de dados históricos de casos semelhantes, de forma sistematizada, para projetar os cenários futuros prováveis.

Essa metodologia – chamada regressão analítica – se aplica em diversas áreas, especialmente no planejamento financeiro que, há décadas, nada mais faz, que, uma vez listadas as premissas e conhecido os históricos, projeta despesas e receitas futuras, o que pode ser aplicado também aos departamentos jurídicos.

Porém, se analisarmos somente os eventos mais recentes ou as próprias experiências de profissionais, poderemos ter dados com direcionamentos equivocado ou conclusões precipitadas – no que chamamos de vieses. Erroneamente e sem qualquer maldade, os números não serão úteis para prevermos os valores que a empresa vai ter que gastar, a pressão de demanda, ou o impacto dos fatores macro, dando a falsa sensação de controle.

Assim, o uso correto da Ciência de Dados, especialmente das ferramentas de estatística e probabilidade, se utilizada corretamente e por pessoas habilitadas pode ser um grande aliado não apenas para os profissionais de planejamento, marketing ou outras áreas, como também para os do jurídico, para não apenas ver o passado no “retrovisor”, mas projetar adequadamente o futuro.

Uma forma simples de entender a necessidade de dados utilizados pelas pessoas certas com as ferramentas certas, pode ser a forma como se cria os diversos tons de tintas para pintura atualmente.

Imagine ir para uma loja de material de construção e criar sua cor única por meio do melhor e mais sofisticado algoritmo de mistura de cores do mundo, capaz de criar um número infinito de novas cores, com uma única condicionante, ele utiliza apenas vermelho e amarelo – isso mesmo, só essas duas cores.

Toda a capacidade desta ferramenta permitirá a criação de uma nova cor, a qual será, invariavelmente uma mistura destas duas cores, ou seja, o resultado indicado será qualquer cor no espectro destas cores – inclusive muitos tons de laranja – mas nunca poderia criar qualquer outra cor que estivesse fora desse espectro, ou mesmo te questionar se essas duas cores são do seu gosto ou combinam com o resto dos cômodos ou desenho do arquiteto.

Por muito tempo, o “algoritmo de todas as variáveis de duas cores” foram os softwares de prateleira que Escritórios de Advocacia e Departamentos Jurídicos adquiriram na busca por estar dentro da tendência de implementar tecnologia à gestão dos temas jurídicos.

Ou seja, se compra uma ferramenta que tira uma fotografia dos eventos passados, com variáveis que nem sempre são aquelas necessárias ou adequadas para a implementação de uma gestão eficiente e moderna do tema jurídico, dentro da chamada lógica Data Driven.

Aliás, as fotografias podem ficar emboloradas e velhas, como estes softwares e suas descrições histórico-analíticas obsoletas, visto que possuem apenas uma visão parcial de todo o fenômeno, desconsiderando as mudanças de tendências, gestão da empresa e outras variáveis que podem ser relevantes e até definitivas.

Não importa quantas tentativas, a super tecnológica máquina/algoritmo da loja de construção não criará um roxo! Para isso precisa de novos elementos, trazidos de fora de uma lógica hermeticamente fechada em si mesma.

Para não se manter – ou cair – nessa cilada, é importante ter as capacidades (incluindo pessoas e ferramentas) necessárias para ter uma visão ampla – 360º– dos problemas jurídicos e da própria operação, sob pena de literalmente “jogar dinheiro pela janela”.

Não há dúvidas que a Ciência de Dados é hoje uma enorme aliada do trabalho humano e ferramenta inestimável na otimização de resultados, sendo sua aplicação nos Departamentos Jurídicos e Escritórios de Advocacia, mera extensão nas novas capacidades disponíveis no mercado, que, inclusive, foram testadas e aprovadas em outros ramos de atividades.

Mas, para aqueles que pensam que substituirá o elemento humano, há que se ter calma, pois o algoritmo é criado, alimentado, gerido e direcionado pelo humano. As tomadas de decisões e desenvolvimento de previsões tem o Gestor Jurídico como principal motor de desenvolvimento da Cultura Data Driven em seus Departamentos e o patrocinador destas conquistas!

*Fabio Floh, CEO da EHTS

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