Tecnologia aplicada ao compliance

Tecnologia aplicada ao compliance

Reynaldo Goto*

15 de novembro de 2021 | 05h00

Reynaldo Goto. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

A tecnologia pode ser uma grande aliada ou um sério desafio para os profissionais da área de Compliance. As constantes mudanças tecnológicas, grande volume de dados e a variedade de temas exigem cada vez mais uma migração dos sistemas analógicos ou semiautomáticos para soluções ágeis e aderentes às realidades desafiadoras das empresas. Empresas de tecnologia, cujo principal bem comercializado é a informação estão no topo do ranking das marcas mais valiosas do mundo em 2020, produzido pela revista Forbes. Essas empresas não produzem bens tangíveis como celulares ou geladeiras, mas formas de se conectar, de encurtar distâncias e de remodelar os relacionamentos sociais. Por outro lado, além do grande avanço econômico dessas empresas, também são constantes e crescentes os casos de fraudes no ambiente digital, com grandes desvios e prejuízos para as empresas.

Em 2006, o matemático Clive Humby, cunhou a famosa expressão “Os dados são o novo petróleo”, alertando para a importância relacionada a valorização das informações. A utilização da infinidade de dados disponíveis nas redes, bem como dos softwares e ferramentas tecnológicas necessárias para sua organização e manipulação permitiram que as empresas atendessem aos consumidores da era digital, com demandas por produtos e serviços personalizados, quando, onde e como quiserem. O fluxo financeiro global também se intensificou muito graças aos avanços tecnológicos, atraindo assim também o interesse de grandes fraudadores. Adicionalmente o aumento da participação das pessoas nas redes sociais tornou possível o desenvolvimento de novos modelos de negócios, que também devem ser objeto das matrizes de risco das empresas e consequentemente dos seus Sistemas de Integridade. Mesmo assim muito dos profissionais da área de Compliance ainda não se adaptaram a essa realidade, limitando o uso de tecnologias para atividades mais simples como treinamentos virtuais ou mesmo sistemas para captura de assinaturas digitais, muitas são as oportunidades, mas também muitos são os desafios para esses profissionais.

É neste cenário de um mundo interconectado, onde novos desafios surgem na mesma velocidade das tecnologias que os acompanham, que a área de Compliance está inserida, sendo demandada por um fluxo enorme de dados que podem gerar os mais variados tipos de risco para a empresa, evidenciando a necessidade de se adaptar a esta nova era, embarcando no mundo digital através da contratação de softwares de ciber-security, de data loss prevention e, primordialmente, da remodelação do programa de Compliance, dedicando novos capítulos dos códigos de conduta, das políticas e normas corporativas e da análise de risco que as transformações digitais trazem.

Obviamente não se espera que os profissionais da área de Compliance se tornem experts nesses temas, porém algumas provocações são necessárias para que se tenha uma atenção à esta realidade em transformação, até mesmo para buscar os especialistas em cada uma das modalidades a seguir mencionadas. Temas como ferramentas com base em tecnologia big data para os processos de análises reputacionais são fundamentais não apenas para aumentar a efetividade, mas também para reduzir o tempo médio de análises. Soluções com sistemas de workflow garantem aos Compliance Officers não apenas o adequado registro e rastreabilidade, mas também o atendimento das normativas internas como alçadas de aprovação para transações consideras de risco como brindes, presentes, doações, patrocínios, controle de treinamentos e interações com órgãos governamentais. Soluções tecnológicas de monitoramento protegem as empresas de temas relacionados a vazamento de informações e aumentam a efetividade dos processos de investigação.

A adoção dessas tecnologias seguramente requer investimentos e muitas vezes pode se tornar inviável economicamente para muitas empresas, por isso um bom planejamento, análise de integração e interação com os sistemas existentes e principalmente uma criteriosa análise de sua operacionalização é fundamental para o sucesso de sua adoção. Como parte integrante do Sistema de Integridade, a adoção de tecnologias também deve evoluir continuamente e se adaptar às realidades de empresa, alinhados com a avaliação contínua dos riscos de Compliance do sistema. Finalmente a utilização de plataformas compartilhadas entre empresas, obviamente respeitando-se as governanças e sistemas de segurança de cada uma, também podem ser opções interessantes para a viabilização da adoção de novas tecnologias.

Uma fronteira ainda pouco explorada, mas que já apresenta grandes discussões, é a relacionada aos sistemas com base em tecnologias de Inteligência Artificial. As decisões são baseadas na ética e moral das pessoas, porém quando esse processo decisório é atribuído à uma máquina nova discussões surgem com relação aos critérios de programação e forma de aprendizado ou replicação das máquinas de erros humanos ou vieses inconscientes programados tecnicamente. A seleção de um candidato a emprego, o atropelamento por um carro autônomo ou o bloqueio de crédito com base em sistemas a base de inteligência artificial são alguns exemplos visíveis de um novo campo de atuação ainda pouco discutido pelos profissionais da área de Compliance.

Em um mercado ainda em franca expansão, as tecnologias voltadas para os Sistemas de Integridade também apresenta uma série de oportunidades para aqueles que querem investir e se desenvolver em um segmento com grande potencial e com crescente demanda frente aos grandes desafios de melhoria contínua exigidos não apenas pelos profissionais da área, mas também pelos órgãos reguladores que monitoram os Sistemas das empresas.

*Reynaldo Goto, diretor de Compliance da BRF, membro do Comitê de Governança da Rede Brasil do Pacto Global, integrante da Comissão de Sustentabilidade e Compliance da ICC, conselheiro da FGVEthics e do Pacto pelo Esporte. Este texto contou com a colaboração de Lucas Espíndola, formado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e profissional certificado de Compliance (CPC-A) pela Legal, Ethics and Compliance (LEC). Analista de Compliance da BRF desde 2019, atuou diretamente na implementação da célula de projetos digitais da área. Membro do comitê de tecnologia da plataforma contra a corrupção do Pacto Global da ONU

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

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