‘Te mandei tudo que é sobre a gente’, diz Andrea a Aécio sobre delação da Odebrecht

‘Te mandei tudo que é sobre a gente’, diz Andrea a Aécio sobre delação da Odebrecht

Interceptação da Polícia Federal na Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, pegou senador do PSDB e sua irmã, presa em Minas desde 18 de maio por suspeita de envolvimento na propina de R$ 2 milhões paga pelo acionista da JBS Joesley Batista

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

01 de junho de 2017 | 18h42

Aécio e Andrea Neves. 25/06/2009. Foto: CHARLES SILVA DUARTE/O Tempo

Grampo da Polícia Federal na Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, capturou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) conversando com a irmã Andrea Neves sobre a delação da Odebrecht. No áudio, Andrea avisa ao irmão que vai mandar a ele o que havia sido divulgado.

A lista dos investigados após a delação da Odebrecht foi divulgada pelo Estado em 11 de abril. Contra Aécio, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia autorizado dias antes cinco inquéritos por suposta solicitação à empreiteira de propinas e doações de caixa 2.

Após a delação da Odebrecht, os irmãos foram sacudidos pela JBS. Andrea e primo do tucano Frederico Pacheco de Medeiros, o Fred, foram presos em 18 de maio na Patmos.

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A irmã de Aécio foi capturada por suposto envolvimento na negociação para entrega de R$ 2 milhões de Joesley a Aécio. Ela teria feito o contato inicial com o empresário e Frederico foi o responsável por receber o dinheiro no lugar de Aécio.

Aécio foi alvo de interceptação telefônica na Patmos. No áudio, o tucano diz à irmã: “Você não tá, né?”

Andrea: “Eu reparei, querido, reparei. Deixa eu te contar uma coisa. Acabei de te mandar tudo que é sobre a gente.”

Aécio: “É bom ou é ruim?”

Andrea: “Olha só”

Aécio: “Já saiu?”

Andrea: “Saiu, o (inaudível) me mandou de algum jornal. Então, olha só uma coisa é Cidade Administrativa, o resto, aí depois, o resto é eleição Dimas Fabiano que é por causa daquele negócio daquela fala do negócio.”

Aécio: “Ahn.”

Andrea: “É caixa 2010 ou 2014, 2010, tenho até que ver direito, te mandei. Vou ler aqui direito o que que é, entendeu?”

Aécio: “Vem cá, não fala nada desse assunto de Nova York?”

Andrea: “Nada, porque eu mandei essa mensagem há 15 minutos atrás. Se não tem meu nome, eu tinha que ser um, concorda? Se tivesse lá.”

Aécio: “É claro.”

Andrea: “Que nem Osvaldo é, que nem Paulo é.”

Aécio: “A não ser que tivessem mandado lá para baixo, o que seria um absurdo, porque…”

O áudio é cortado neste momento.

O QUE AÉCIO NEVES DIZ SOBRE A DELAÇÃO DA JBS

Delação da Odebrecht. Aécio foi citado nos depoimentos do herdeiro da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, do ex-diretor da empreiteira em Minas Sérgio Luiz Neves, de Benedicto Júnior, o ‘BJ’, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, do ex-vice presidente da Odebrecht S.A Henrique Serrano do Prado Valladares e de Cláudio Melo Filho, ex-diretor de Relações Institucionais do grupo em Brasília.

Num dos pedidos, o procurador requereu investigação sobre Aécio e Anastasia, seu aliado, por suspeita de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os colaboradores revelaram que, em 2010, a pedido de Aécio, pagaram R$ 5,4 milhões em “vantagens indevidas” para a campanha de Anastasia ao governo de Minas.

Os delatores contaram ainda que, também por solicitação de Aécio, quando ainda era governador, desembolsaram em 2009 R$ 1,8 milhão para a campanha de Anastasia.

No documento enviado ao Supremo, Janot também requer investigação sobre Oswaldo Borges, ex-presidente da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig), estatal responsável pela construção da Cidade Administrativa, e Paulo Vasconcelos, marqueteiro responsável pelas campanhas dos tucanos mineiros.

Janot pediu também a abertura de inquérito para investigar supostas condutas de Aécio e do deputado federal Dimas Fabiano Toledo Júnior (PP-MG). Os delatores apontaram que, em 2014, pagaram, a pedido de Aécio, caixa dois para a campanha dele e de vários outros parlamentares, como Anastasia, o próprio Dimas e o ex-ministro Pimenta da Veiga, candidato derrotado ao governo de Minas naquele ano.

Nesses dois casos, o procurador apontou suspeitas de corrupção passiva, ativa e lavagem de dinheiro.
Há ainda um terceiro pedido de investigação por conta de outros repasses eleitorais em 2014. Segundo os delatores, Aécio requereu naquele ano vantagens indevidas para si e aliados.

Janot solicitou um quarto inquérito para apurar indícios de corrupção, formação de cartel e fraude a licitações na construção da Cidade Administrativa, nova sede do governo mineiro, construída na gestão de Aécio.

O procurador-geral justificou que os delatores relataram, apresentando prova documental, que o tucano, recém-empossado para o segundo mandato como governador, organizou em 2007 esquema para fraudar processos licitatórios, mediante organização de um cartel de empreiteiras, na construção do complexo, que custou cerca de R$ 2 bilhões. O objetivo seria obter “propinas” decorrentes dos pagamentos das obras.

Um quinto pedido de inquérito se refere ao pagamento de suborno para que Aécio favorecesse interesses da Odebrecht, em conluio com a Andrade Gutierrez, nas obras das usinas do Rio Madeira, Santo Antônio e Jirau. Os delatores relataram a promessa e o pagamento de vantagens indevidas em benefício do senador e do PSDB.

Valladares contou que a empreiteira pagava prestações de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões, repassados pelo Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas do grupo, para “Mineirinho”, codinome atribuído a Aécio.

Marcelo Odebrecht disse que Aécio tinha forte influência na área energética, pois o governo mineiro controlava a Cemig, uma das sócias de Santo Antônio. Por isso, segundo ele, o grupo concordou com os pagamentos.

Janot sustenta em seu pedido haver indícios de corrupção ativa e passiva, além de lavagem de dinheiro, no caso.

COM A PALAVRA, O SENADOR AÉCIO NEVES

O diálogo trata da publicação, na data, pelo STF, das delações feitas por ex-executivos da Odebrecht e do fato relevante de que jamais existiu a acusação publicada pela revista Veja de que Andrea Neves possuía conta em Nova York para recebimento de recursos.

A divulgação do conteúdo das delações, como afirma Andrea no diálogo, revelou que tal afirmativa nunca foi feita. Importante notar que este diálogo foi descartado do inquérito por ausência de qualquer fato significativo.

Assessoria do senador Aécio Neves

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