‘Taxista de confiança’ de Filippi Júnior diz que sempre foi à UTC buscar presentes

‘Taxista de confiança’ de Filippi Júnior diz que sempre foi à UTC buscar presentes

João Henrique Worn foi conduzido coercitivamente na Operação Aletheia, desdobramento da Lava Jato

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

31 de março de 2016 | 17h11

José de Filippi. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

José de Filippi. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Em depoimento à Polícia Federal, no âmbito da Operação Aletheia, desdobramento da Lava Jato, João Henrique Worn, o ‘taxista de confiança’ do ex-tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff (2010) José de Filippi Junior (PT), disse que suas idas à UTC Engenharia foram ‘sempre para buscar “presentes” destinados’ ao petista. Em 4 de março, o taxista foi conduzido coercitivamente e detalhou sua relação com Filippi.

A Lava Jato investiga se João Henrique Worn teria recebido propina da UTC para o ex-tesoureiro. Segundo João Henrique Worn, em duas oportunidades, uma em 2010 e outra em 2014, ele esteve na empreiteira ‘apenas para levar recibos eleitorais que o escritório político (de Filippi) pedia para entregar’.

“Ao longo dos anos (2010 a 2014), acredita que tenha ido até a UTC umas 20 vezes, porém dentro desse número estão também as viagens em que José de Filippi ia como passageiro e o declarante o aguardava do lado de fora. Com havia muita burocracia para entrar na empresa, era mais fácil o declarante estacionar do lado de fora e José de Filippe Junior entrar a pé”, disse.

Registros de acesso de João Henrique Worn à UTC. Foto: Reprodução

Registros de acesso de João Henrique Worn à UTC. Foto: Reprodução

Tabela com supostos valores que teriam sido entregues a João Henrique Worn. Foto: Reprodução

Tabela com supostos valores que teriam sido entregues a João Henrique Worn. Foto: Reprodução

O delegado federal Julio Sávio Monfardini questionou o taxista sobre os ‘presentes’ que ele teria buscado na sede da empreiteira. “Afirma que, como regra, pegava no subsolo sacolas de papelão tipo de marca de grife de shopping, sempre fechadas com algum grampo ou alguma etiqueta adesiva unindo as bordas. Em uma oportunidade pegou uma mochila com o logotipo da própria UTC. O declarante entrava na garagem e era recebido por algum funcionário da segurança do local.”

A PF mostrou ao taxista uma tabela entregue por Ricardo Pessoa e Walmir Pinheiro, com datas e valores, que variavam entre R$ 25 mil e R$ 200 mil. “Afirma não ter conhecimento acerca desses valores”, disse o taxista.

[veja_tambem]

João Henrique Worn afirmou ainda. “Por vezes foi recebido pelo senhor Walmir Pinheiro, o qual pessoalmente lhe entregou a sacola a ser repassada diretamente a José de Filippi Junior. Por vezes, porém, o declarante foi obrigado a descer do veículo e subir até o 8° andar, quando então era recebido por alguma recepcionista que lhe entregava a sacola. Por conta disso, há registros seguidos de presença no interior do edifício, ou seja, quando recebia a sacola no subsolo havia apenas um registro de entrada e outro de saída. Tudo era muito rápido.”

Segundo o taxista, em nenhuma dessas idas ele teve contato pessoal com Ricardo Pessoa. “Nunca lhe foi dito o conteúdo desses pacotes, até porque o declarante nunca questionou. O declarante sempre foi uma pessoa de confiança do senhor José de Filippi Júnior. O declarante mantém a negativa no sentido de que não tinha conhecimento acerca do conteúdo das sacolas / presentes que retirava na UTC e entregava em mãos a José de Filippi Júnior. Afirma que poderia haver qualquer coisa dentro daquelas sacolas, inclusive documentos.”

Carreira. O taxista contou que trabalhou como funcionário público da Prefeitura de Diadema entre 1982 até 1997, na Secretaria de Obras. José de Filippi foi prefeito de Diadema durante três mandatos (1993 a 1996, 2001 a 2004 e 2005 a 2008).

“Quando José de Filippi Júnior se candidatou a Deputado Estadual (1998) o declarante foi trabalhar com ele diretamente na campanha. Eleito, José de Filippi convidou o declarante e toda a equipe dele para trabalhar em cargo comissionado (Agente de Segurança – Motorista) na Assembléia Legislativa de São Paulo, função essa que o declarante exerceu até o ano de 2000 quando José de Filippi Júnior foi eleito Prefeito de Diadema”, informou o taxista à PF.

João Henrique Worn disse que Filippi levou novamente levou toda a equipe para a Prefeitura de Diadema e que ele foi alocado junto ao Gabinete na função de motorista do prefeito. Segundo Worn, ele ficou 8 anos no cargo, pois Filippi foi reeleito prefeito em 2004.

“Nas eleições de 2008 José de Filippi Júnior não concorreu a nenhum cargo eletivo, tendo então viajado para os Estados Unidos a fim de fazer curso. Com essa troca de prefeitos, o declarante perdeu sua função de confiança, momento em que adquiriu um táxi”, afirmou.

“José de Filippi Júnior foi eleito Deputado Federal pelo PT e convidou o declarante a trabalhar como motorista de seu escritório político em São Paulo, sendo que o vínculo do declarante era com a Câmara dos Deputados. Por 3 meses, o declarante exerceu essa função que consistia, basicamente, em levar e buscar José de Filippi Júnior no aeroporto, levá-lo a reuniões políticas, jantares etc”, disse.

Segundo o taxista, naquele período, ele levou Filippi à sede da UTC, situada na Avenida Nações Unidas.

“Alegando problemas administrativos, o chefe de gabinete de José de Filippi Júnior, senhor José Jacinto de Oliveira, disse que o declarante seria descomissionado, mas que continuaria trabalhando na mesma função para o deputado, mas para isso deveria abrir uma microempresa de prestação de serviços de transporte por meio de táxi. O declarante abriu a empresa Taxi S.P VIP, com a qual passou a emitir as notas fiscais de prestação de serviços, serviço esse que perdurou por cerca de 2 anos, até que ele assumiu a Secretaria de Saúde da cidade de São Paulo na gestão Haddad.”

O taxista detalhou. “Quando José de Filippi Júnior tornou-se Secretaria de Saúde em 2012 o declarante não mais o acompanhou como cargo comissionado, momento em que o declarante passou a prestar serviços diretamente ao escritório particular de engenharia que ele possui vinculado à empresa FC3 Engenharia LTDA. O declarante fazia de tudo, ou seja, banco, cartório etc, porém não mais atuava
como motorista de José de Filippi Júnior, o qual contava com corpo de motoristas próprio da Secretaria de Saúde. Até 2013 o declarante exerceu essas atividades, ao mesmo tempo em que trabalhava com seu táxi na rua. Em maio de 2013 o declarante, por problemas financeiros, precisou vender seu táxi. Em abril de 2013 o declarante conseguiu se aposentar por tempo de serviço, quando então não mais exerceu outra atividade remunerada.”

De acordo com João Henrique Worn, desde abril de 2013 ele vive de sua aposentadoria, ‘além de eventuais serviços de transporte que prestava a José de Filippi com o carro do comitê político de Mario Reale’.

Tendências: