Talentos demais

Talentos demais

Cassio Grinberg*

08 de fevereiro de 2019 | 07h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Existe uma receita conhecida que escala três ingredientes do mundo corporativo: tenha uma ideia, mobilize o entorno, arranje o melhor time para executá-la. Mas o que acontece quando fazemos tudo isso, porém reunimos talentos demais?

Michael Lewis, autor do livro adaptado para o cinema Moneyball, escreveu para a The New Yorker um perfil do jogador de basquete Shane Battier. O perfil, que rodava na mesma via do filme que recém mostrara ao mundo o incrível sucesso de um time de beisebol que tirava o máximo das estatísticas de jogadores comuns, expunha possibilidades jamais imaginadas, de modo que o jogador terminou contratado pelo Miami Heat – um time que, apesar de contar com Dwayne Wade e LeBron James, havia seis anos não conseguia vencer a temporada da NBA.

A entrada de Battier no time, um “jogador médio” humilde o suficiente para conhecer seu lugar e como contribuir a partir dele, mudou tudo: assim como com a dupla Dunga/Romário – que corporificou o que faltou na brilhante seleção brasileira de 1982 e sobrou na “medíocre” (mas vencedora) seleção de 1994 – ele era o jogador que apontava a LeBron onde tinha que estar dentro da quadra e por cima de qual lado do corpo deveria forçar os adversários a arremessar. Como resultado, o Miami Heat foi campeão, naquele ano e também no ano seguinte.

John Nash, conhecido como o “gênio atormentado” criador da Teoria dos Jogos, baseou-se no pressuposto de que uma equipe (seja um time, uma empresa, um ministério ou mesmo uma família) tem mais chance de sucesso se seus integrantes tomarem medidas simultaneamente melhores para si mesmos e também para o time. Vocês lembram da imagem de um Lionel Messi constrangido no Maracanã ao receber a Bola de Ouro da Copa do Mundo de 2014? Trata-se de um exemplo de consciência de equipe: embora ele tenha sido o melhor, seu time simplesmente perdeu.

O tema da diversidade, tão em voga hoje em dia, bem poderia também navegar pelo oceano dos talentos não aparentes. Não se condene, portanto, se você tem menos talento do que imagina: em um mundo colaborativo de muito mais insights do que gênios, pode ser que a soma de trabalho duro e sua habilidade ‘na curva’ se constituam, justamente, na porta de entrada para seu pitch.

*Cassio Grinberg, economista e consultor de empresas

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