‘Tá pensando que eu sou esses ministros que você indicou?’, disse Geddel a Cunha

‘Tá pensando que eu sou esses ministros que você indicou?’, disse Geddel a Cunha

Operação Cui Bono?, da PF, resgatou mensagem trocada em 2012 em que o então vice da Caixa brinca com o então deputado peemedebista

Julia Affonso, Fausto Macedo e Fabio Fabrini

16 de janeiro de 2017 | 12h46

Geddel Vieira Lima. Foto: Ed Ferreira/AE

Geddel Vieira Lima. Foto: Ed Ferreira/AE

Relatório da Polícia Federal, na Operação Cui Bono?, destaca uma brincadeira entre o ex-ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo Michel Temer) e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A Cui Bono? investiga um esquema de fraudes milionárias instalado na Caixa Econômica Federal entre 2011 e 2013, período em que Geddel detinha forte influência na Caixa.

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Documento

Na época, Geddel era vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa (gestão de Dilma Rousseff, 2011-2016. Eduardo Cunha, então deputado federal, está preso desde 19 de outubro em Curitiba. Ele foi capturado pela Operação Lava Jato.

Eduardo Cunha fez exames no IML, após ser preso na Lava Jato. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

Eduardo Cunha fez exames no IML, após ser preso na Lava Jato. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

Na mensagem de 29 de agosto de 2012 capturada pela PF, Eduardo Cunha pergunta a Geddel se a situação da J&F foi resolvida e obtém resposta positiva.

“Geddel confirma ainda que já estaria na pauta do Conselho Deliberativo (‘CD’), e brinca sobre sua eficiência em relação aos ministros que Eduardo Cunha teria indicado”, destaca o relatório da PF.

Às 23h05 daquele dia, Eduardo Cunha questiona Geddel. “JF não resolveu?”

O então vice da Caixa afirma às 23h23. “Tá resolvido. Tá na pauta do CD de terça. Vc tá pensando que eu sou esses ministros q vc indicou? Abs.”

Trinta e dois segundos depois, Eduardo Cunha devolve. “Ok rasrsrs.”

Em 31 de agosto de 2012, Geddel manda nova mensagem com um relatório de duas operações para a liberação de crédito da J&F.

Segundo a PF, ‘as opções citadas por Geddel e Eduardo Cunha referem-se a operações de crédito corporativo da Vice-Presidência de Pessoa Jurídica, área do próprio Geddel’. A troca de mensagens prossegue. Em 11 de setembro, Geddel questiona Cunha se a J&F ‘já teria sinalizado que faria algum pagamento’.

“Cunha responde que ‘esse’ ainda não tinha sinalizado, mas que estaria vendo pagamento de outra empresa, ou, ainda, de outra operação de crédito”, relata o documento da Federal.

A Operação Cui Bono? é um desdobramento da Operação Catilinárias, realizada em 15 de dezembro de 2015. No relatório, a Federal aponta para uma manifestação da Procuradoria-Geral da República na Catilinárias.

“De acordo com a representação oferecida pela PGR na operação Catilinárias, houve captação suspeita de recursos de empresas ligadas ao grupo JBS, Eldorado e J&F. Tal afirmação se confirma nas conversas entre Geddel e Eduardo Cunha tratando de assuntos envolvendo a relação da J&F e a Caixa Econômica Federal”, aponta a PF no documento.

COM A PALAVRA, AO ADVOGADO QUE DEFENDE GEDDEL VIEIRA LIMA

Quando a operação foi deflagrada, o advogado Gamil Föppel, que defende Geddel Vieira Lima, afirmou que a ‘malfadada operação’ decorre de ‘ilações e meras suposições não comprovadas’. Em nota, reclamou que a decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal em Brasília, que autorizou a Operação Cui Bono?, foi apressada e ‘não traz nenhum fundamento idôneo que justificasse’ as medidas.

“Além disso, não há indicação pela polícia ou MPF (Ministério Público Federal) de qualquer fato/elemento concreto que pudesse representar corrupção ou lavagem de dinheiro, até porque tais atos jamais foram praticados por Geddel.”

Föppel chamou o relatório da PF de ‘ficcional’ e ‘repleto de suposições’, Argumentou que o documento não aponta concretamente ‘qualquer valor que tivesse sido recebido por Geddel’.

“Geddel nada recebeu. Informa que está, como sempre esteve, à disposição das autoridades”, afirmou.

COM A PALAVRA, A J&F

Sobre o diálogo entre Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha a J&F esclarece que:

Dado que a Companhia nunca procurou os políticos para pedir facilidade ou intermediação em quaisquer de suas operações financeiras, causam estranheza o conteúdo exposto na conversa e o imenso interesse de ambos em interferir nas relações entre a Caixa Econômica Federal e a J&F. Sendo assim, a Companhia considera fundamental que as autoridades deem celeridade para o completo esclarecimento dos fatos.

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