‘Tá com o Fachin? Eu tô precisando fazer uma visita pra ele’, diz Delcídio

‘Tá com o Fachin? Eu tô precisando fazer uma visita pra ele’, diz Delcídio

Estratégia do líder do governo para barrar a Lava Jato incluía melar a delação do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, que denunciou deputados, senadores e governadores como beneficiários de propinas na Petrobrás entre 2004 e 2014

Julia Affonso, Fausto Macedo, Andreza Matais e Beatriz Bulla

25 Novembro 2015 | 13h41

Delcidio. Foto: André Dusek/Estadão

Delcidio. Foto: André Dusek/Estadão

O passo mais ousado da estratégia do senador Delcídio do Amaral (PT/MS), líder do governo, para barrar a Operação Lava Jato era melar a primeira e mais explosiva delação premiada sobre o esquema de corrupção e propinas instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014. Em reunião no hotel Golden Tulip, em Brasília, no dia 4 de novembro, o petista se comprometeu a ‘conversar com o ministro Edson Fachin’, do Supremo Tribunal Federal sobre um habeas corpus que questiona a delação do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa.

O ex-diretor denunciou deputados, senadores e governadores como beneficiários do esquema de corrupção e propinas instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014.

OUÇA O TRECHO EM QUE DELCÍDIO FALA SOBRE ‘FACHIN’ A PARTIR DOS 21 MINUTOS

A conversa foi gravada pelo filho de Cerveró, Bernardo, que participou de uma reunião com Delcídio e o advogado da família, Edson Ribeiro.

 

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No encontro participaram, além de Delcídio do Amaral, seu chefe de gabinete, Diogo Ferreira, o advogado Edson Ribeiro, que defende o ex-diretor da área Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró, e Bernardo Cerveró, filho do executivo da estatal. Preso de desde janeiro deste ano, Cerveró já foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato.

No último dia 18, após intensas negociações, Cerveró fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. Era esse o temor de Delcídio. O líder do governo tinha receio de que Cerveró o envolvesse no esquema de propinas na Petrobrás, estatal onde o petista trabalhou no setor de Óleo e Gás, no governo Fernando Henrique Cardoso.

“O congressista dispõe-se, ademais, a conversar com o ministro Edson Fachin sobre outro habeas corpus que discute a anulação do acordo de colaboração de Paulo Roberto Costa e está com vista para o Ministro, diante de ponderações do advogado Edson Ribeiro de que, concedida a ordem nessa impetração, a Operação Lava Jato seria em boa medida anulada”, relata o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

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Na conversa com Delcídio, o advogado de Cerveró diz que anulada a delação de Paulo Roberto Costa a decisão poderia se estender às outras colaborações premiadas da Lava Jato, como a do lobista Fernando Baiano.

“Ouve-se até mesmo, na conversa, determinação do congressista a seu chefe de gabinete de que anotasse em sua agenda o compromisso de “tomar um café” com o Ministro Edson Fachin”, relata Janot ao STF.

Depois da reunião de Brasília/DF, houve ainda mais uma, em 19 de novembro de 2015, no Rio, no escritório do advogado Edson Ribeiro, “para dar sequência às tratativas que vinham sendo entabuladas”.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO SENADOR DELCÍDIO DO AMARAL

Nota Oficial

A defesa do Senador Delcídio do Amaral (PT-MS) manifesta inconformismo em relação à decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal e a convicção de que o entendimento inicial será revisto. Questiona-se o fato de que as imputações tenham partido de um delator já condenado, que há muito tempo vem tentando obter favores legais com o oferecimento de informações. Questiona-se também a imposição de prisão a um Senador da República que sequer possui acusação formal contra si. A Constituição Federal não autoriza prisão processual de detentor de mandato parlamentar e há de ser respeitada como esteio do Estado Democrático de Direito.

Maurício Silva Leite, advogado do Senador Delcídio do Amaral