SXSW19: inteligência artificial cada dia mais. Privacidade nunca mais

Os ventos que sopram no maior evento de inovação do mundo

Moriael Paiva*

24 de março de 2019 | 09h00

Basta soltar o termo inteligência artificial (ou AI para os mais antenados) para já parecer que estamos falando de coisa de filme de ficção científica. Soa como algo longe da gente, mas o fato é que isso já faz parte de nossas vidas.

Sim, poucos percebem e não precisa ir muito longe. Pense primeiro nos algoritmos por trás das principais redes sociais e dos maiores sites de compra que você já passou, nos games do seu telefone, nos sistemas de automação de carros e casas e até mesmo no simples álbum de fotos do seu último smartphone. Saiba que vários dos seus passos já são acompanhados por alguma “leitura” de dados que, uma vez processados, se convertem em conteúdos e novas informações customizadas para você.

Simplificando: os dados que você gera diariamente -milhares deles- ensinam as máquinas a conhecê-lo melhor e a tomar decisões rápidas por você. Ou você acha mesmo que é apenas coincidência que suas redes sociais recebam tantas ofertas que são a sua cara? Ou que a Amazon adivinhou do nada que você anda precisando de algo e isso já pulou no seu e-mail como se fosse mágica? Pode ser uma busca no Google, uma mensagem por e-mail ou apenas um sinal emitido pelo seu novo Apple Watch, um mundo de novas informações geradas a cada segundo que não param mais com você.

Como em todas as versões do SXSW, havia uma temática no ar: de quem são esses dados afinal e como eles serão tratados e cuidados? Antes que você grite daí “peraí, lógico que são meus!”, já emendo com a única certeza que já sabemos: a privacidade acabou.

Todas as tendências apontam que, em mais alguns anos, a maioria das interações será feita por voz ou apenas por reconhecimento facial. A boa notícia é que você não vai mais se preocupar em decorar tantas senhas. Seu rosto será sua senha como já o é em alguns smartphones. Mas isso será também a chave do seu carro, a confirmação de transações de todos os tipos e vai mudar a sua experiência de compra. Uma tendência aponta que o Walmart poderá ofertar produtos e descontos de acordo com o escaneamento corporal do cliente e a análise em tempo real do seu movimento no supermercado -se rápido, se lento, por quais corredores passa e até analisando o que seu corpo “entrega” de informações-, se está contente, emburrado, estressado.

Alexa, mundialmente famosa home-assistant da Amazon, passará a reconhecer não apenas comandos, mas saberá pela voz do dono algo mais: se está chateado, triste, alegre… Para cada sentimento, pode preparar uma resposta ou ação, como tocar uma música. Ou mesmo se perceber pela voz que o dono está gripado, já ofertar um remédio que chegará bem rápido pelo seu e-commerce integrado. Até porque saber onde você está já é coisa do passado, não é mesmo?

A questão importante disso e que vai merecer atenção máxima diz respeito a proteção dos dados pessoais. E sobre a governança desses dados. Onde estão, quem é o dono disso, o que você precisa fazer para deixar que usem ou não? A comunidade européia largou na frente com a entrada em vigor da GDPR, lei que protege os dados pessoais de seus cidadãos e cria regras claras de como podem ser usados -e a consequente maneira de autorizar junto aos donos. No Brasil, teremos uma lei derivada do GDPR, o que já representa um avanço. Os olhos então se voltam para os EUA, onde estão as principais empresas que coletam boa parte dos dados do nosso dia a dia, como Google, Facebook, Apple, Microsoft e Amazon.

Então, antes que você saia desligando tudo da tomada, decida largar as redes sociais e desconfie de qualquer câmera perto, saiba que a tecnologia que aponta para os próximos anos tem tudo para tornar a vida do mundo muito melhor do que é hoje. Não são poucas as iniciativas que usam inteligência artificial, ciência de dados e tecnologia de ponta para melhorar a agricultura, a saúde e a distribuição de alimentos. Cientistas, pequenas e grandes empresas de tecnologia e mesmo startups que nem nasceram direito trabalham nisso todos os dias pelo mundo inteiro.

A questão colocada é que a tecnologia e a gestão dos dados pessoais seja feita de forma responsável.

Foi a principal cobrança do SXSW 2019 em todas as diferentes frentes de negócio. Pode apostar que é realmente a pauta que importa no futuro próximo quando o assunto for tecnologia. Está em dúvida? Pergunta para a Siri ou para a Alexa.

*Moriael Paiva é vice-presidente de Digital da Ideia Big Data

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