Suzano: um reflexo das más gestões na segurança pública de São Paulo

Suzano: um reflexo das más gestões na segurança pública de São Paulo

Coronel Tadeu*

21 de março de 2019 | 10h00

Coronel Tadeu. FOTO: DIVULGAÇÃO

Após uma semana, ainda ecoa em nossos ouvidos a tragédia da escola em Suzano. É uma tristeza pelas vítimas e seus familiares, pelos quais criamos uma empatia imediata. Tristeza pelo descaso com a segurança pública e pelos estudantes, que precisam retomar suas vidas no local do massacre.

Tenho feito uma reflexão como cidadão e como policial militar, considerando as causas de tal barbárie e quais seriam as soluções para evitarmos novas ocorrências como essa.

Quando penso na escola, o que me vem à cabeça, em primeiro lugar, é um local de acolhimento, para onde mandamos nossos filhos e imaginamos estarem seguros.

Portanto, de imediato, não posso me furtar a pensar que atividades escolares que mobilizem professores, educadores, alunos, pais e comunidade, sejam de vital importância para a conscientização, para a criação de um ambiente saudável, que estimule a convivência pacífica, apesar das diferenças e divulgue valores contra a violência.

Da mesma forma, atividades que integrem o poder público e a escola, sempre serão bem-vindas e fortalecerão esses vínculos positivos.

No entanto, como policial militar, automaticamente, pondero sobre quais medidas de segurança pública poderiam e deveriam ser tomadas, para que a população não sofra essas atrocidades. Costumo dizer que há a parte fácil e a parte difícil, para buscarmos a solução.

A parte fácil, sem dúvida nenhuma, seria a de colocar segurança permanente em cada escola pública.

Ronda escolar efetiva e onipresente, portões fechados, minimizariam e até evitariam ocorrências dessa natureza. No caso específico de Suzano, uma viatura policial que estivesse na porta da escola, não teria permitido a entrada de ninguém que não fosse estudante e, com certeza, tais criminosos jamais teriam arquitetado essa empreitada ou considerado a possibilidade de praticar o crime no local, sabedores da segurança presente.

Para se ter uma ideia, temos 5.700 escolas estaduais e milhares de escolas municipais.

Imaginem a quantidade que deveria somar o efetivo da corporação, para dar conta da ronda escolar, ainda que levássemos em conta um policial por escola. Infelizmente, trombamos com o orçamento deficitário e insuficiente para atender todas as demandas e a falta de investimento na segurança do Estado.

O quadro está muito complicado, para dizer o mínimo, diante da falta de dez mil policiais na rua e da capacidade limitada de formação de dois mil policiais por ano.

Fazendo uma simples conta, levaríamos cinco anos para repor o efetivo e, transcorrido esse tempo, já estaríamos defasados novamente. Nos dias de hoje, com o efetivo deficiente, se não há número suficiente para fazer o policiamento ostensivo nas ruas, que dirá um policiamento direcionado às escolas.

Essa situação gera um impacto negativo direto no Estado, pois temos um cobertor curto e não conseguimos fazer milagres. Estamos sofrendo as conseqüências e pagando um preço elevado por sucessivas gestões mal trabalhadas.

No que se refere ao atentado de Suzano, os policiais demoraram oito minutos para chegar ao local, mas, nesse ínterim, o caos já tinha se instalado.

Os portões estavam abertos, a entrada foi facilitada. E ainda que a escola não tivesse sido palco para essa tragédia, a entrada franca pode sempre proporcionar roubos e furtos.

As escolas particulares estão sempre com portões fechados, ninguém entra sem identificação, há sempre ao menos um segurança particular no portão, no horário de entrada e saída. Muitas obrigam o uso de uniforme, para identificar facilmente os estudantes. Tudo isso, porque é notória a necessidade.

Chegamos à conclusão que a parte difícil da solução é o altíssimo custo, que não pode ser suportado pelo Estado. Houve um enorme crescimento e a estrutura da segurança pública não o acompanhou, pior que isso, amoleceu nas primordiais regras de segurança.

O Estado é hoje leniente com a impunidade e cúmplice com o tráfico de drogas e de armas. Sem contar o custo alto para aumentarmos o efetivo, para cursos e treinamentos, para aparelhamento da corporação. As escolas sempre precisaram de segurança para combater o tráfico de drogas e agora, mais do que nunca, para conter a fúria de homicidas e suicidas.

Precisamos, portanto, continuar a discutir a segurança pública e, principalmente, praticar e investir, para sermos eficazes e atendermos às necessidades da população.

Caso contrário, se existirem mais criminosos como esses, quaisquer que sejam as razões que os motivam, ficaremos chorando essas mortes e chegaremos em um ponto em que teremos que rezar para não acontecer mais. Triste para um policial militar ter que admitir isso, mas é a realidade.

Espero, realmente, não ter mais que dar nomes a atentados e massacres.

*Coronel Tadeu é deputado federal (PSL-SP)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.