SUS da Educação? Vamos ver!

SUS da Educação? Vamos ver!

José Renato Nalini*

23 de abril de 2022 | 12h30

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O Senado aprovou, por setenta e quatro votos, o projeto que cria o Sistema Nacional de Educação – SNE, que tem sido elogiado como um “SUS da Educação”. Têm razão os que se preocupam com a educação de qualidade, que é muito rara na rede pública brasileira. A burocracia estatal se perdeu no tempo. Esqueceu-se de que o próprio Michel de Montaigne, em seus “Ensaios”, de cinco séculos atrás, já estranhava como é que se pensava ensinar as crianças: várias dezenas são enfileiradas numa sala de aula, o último da fila só enxerga a nuca do companheiro à frente.

Aulas prelecionais proferidas para seres distintos, com personalidades, temperamentos, inclinações e talentos diferentes. Tudo isso é ignorado pelo professor, considerado o detentor de todo o conhecimento, enquanto o aluno é uma tábula rasa, desprovida de qualquer mínimo saber. Estranha-se quando poucos desses discípulos “dão certo” na vida.

Numa era em que o mundo web fornece universo infinito de informações, que podem se transformar em conhecimento desde que os mestres sejam cuidadores eficazes, talentosos e carinhosos, verdadeiros curadores ou “coachs” de alunos que merecem atenção individualizada, a educação não pode continuar a ser a mesma do medievo.

Não adianta falar em “ensino integral”, nem na dotação de equipamento tecnológico para as escolas. É urgente e imprescindível nova mentalidade. Essa ainda não contaminou os responsáveis do governo, que continuam mais preocupados com as avaliações, para fazer bonito no “ranking” das melhores escolas.

Nem está nos planos das numerosas organizações que palpitam, vendem consultoria dispendiosa, escrevem artigos, dão entrevistas, mas nunca entraram numa sala de aula e não conhecem o “chão da escola” da periferia.

É muito edificante falar em colaboração entre União, Estados-Membros e Municípios. Num momento em que o MEC privilegia pastores, imprime bíblias com foto do transitório ministro, pede propina e só favorece aliados, qual o grau de confiabilidade em qualquer esquema submetido à política profissional que contaminou o Brasil?

Além disso, o excesso de municípios desta República, a maioria dos quais sem qualquer receita, a depender do Estado e da União, como dar conta de um ensino à altura das necessidades da população carente?

O essencial, em qualquer projeto educacional que realmente mude a fragílima situação do ensino/aprendizado neste país, é o envolvimento da família e da sociedade. Família é corresponsável pela formação da prole. Educar é investir no desenvolvimento integral das potencialidades de cada indivíduo, formá-lo para exercer uma cidadania ativa e responsável e capacitá-lo para o trabalho. Não para o emprego, que é algo em processo de extinção. Mas para exercer atividade produtiva e garantidora de seu sustento e o de seus dependentes.

Ninguém substitui a mãe, primeira mestra, aquela que se desincumbe do chamado “currículo oculto”: ensinar as palavras mágicas “por favor”, “com licença”, “muito obrigado”, “desculpe-me” e outras expressões que foram esquecidas em quase todos os lugares.

São os pais que devem investir na formação dos verdadeiros mestres. Aqueles vocacionados, que gostem de crianças, que gostem de gente. Há uma legião de alfabetizadoras com expertise: as professoras aposentadas, que fizeram o curso “Normal”, infelizmente extinto. As Faculdades de Pedagogia ensinam a fazer teses, dissertações e ensaios. Mas não ensinam a alfabetizar.

Enquanto não se levar a educação a sério, como investimento, não como gasto ou custo inútil, enquanto houver antagonismo entre governo e professorado, enquanto os pais não frequentarem assiduamente a escola, como dever e como direito deles, nada mudará no melancólico cenário que hoje prevalece.

Gasta-se uma fortuna com a educação do governo. Resultado pífio. Analfabetos em sentido estrito, analfabetos funcionais, geração sem valores, sem iniciativa, sem perspectiva. Alvo fácil da boçalidade e dos vícios, um descrédito – até compreensível – em tudo o que lembra um passado rançoso e desalentador.

Se o Brasil não acordar e não levar a sério o que é flagrante e reconhecido no restante do planeta – basta verificar nossa performance na avaliação PISA da OCDE – continuaremos na periferia e no retrocesso que é a palavra-chave do presente momento tupiniquim.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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