Supremo vai decidir extensão de licença-maternidade à mãe não gestante em união estável homoafetiva

Supremo vai decidir extensão de licença-maternidade à mãe não gestante em união estável homoafetiva

Plenário da Corte reconheceu a repercussão geral da matéria, que, segundo o relator, ministro Luiz Fux, 'envolve a proteção à maternidade e os custos à coletividade da concessão de benefício previdenciário'

Redação

11 de novembro de 2019 | 14h03

O Supremo vai decidir se é possível a concessão de licença-maternidade à mãe não gestante, em união estável homoafetiva, nos casos em que a gestação de sua companheira decorra de procedimento de inseminação artificial. O tema será analisado no Recurso Extraordinário (RE) 1211446, que teve repercussão geral reconhecida no Plenário Virtual por maioria de votos.

As informações estão no site do Supremo. Processo relacionado: RE 1211446

Para turma recursal de São Bernardo do Campo, o benefício ‘é uma proteção à maternidade e possibilita o cuidado e o apoio ao filho no estágio inicial da vida, independentemente da origem da filiação’ Foto: Pixabay/@2081671/Divulgação

O recurso é movido pelo Município de São Bernardo do Campo contra decisão de Turma Recursal do Juizado Especial da Fazenda Pública da cidade do ABC  paulista que garantiu a licença-maternidade de 180 dias a uma servidora municipal cuja companheira engravidou por meio de inseminação artificial heteróloga (em que o óvulo fecundado é da mãe não gestante).

A companheira da servidora é trabalhadora autônoma e não usufruiu do direito à licença.

Segundo a Turma Recursal, o direito à licença-maternidade é assegurado no artigo 7.º, inciso XVIII da Constituição Federal e na legislação infraconstitucional, e esses dispositivos devem ser interpretados conforme os atuais entendimentos jurisprudenciais acerca da união homoafetiva e da multiparentalidade.

A Turma entendeu também que o benefício ‘é uma proteção à maternidade e possibilita o cuidado e o apoio ao filho no estágio inicial da vida, independentemente da origem da filiação’.

O QUE ALEGA SÃO BERNARDO NO SUPREMO

No Supremo Tribunal Federal, o município alega que ‘a interpretação extensiva atribuída ao direito à licença-maternidade contraria o princípio da legalidade administrativa (artigo 37, caput, da Constituição Federal), pois não há qualquer autorização legal para a concessão da licença na hipótese’.

Argumenta ainda que ‘o direito ao afastamento remunerado do trabalho é exclusivo da mãe gestante, que necessita de um período de recuperação após as alterações físicas decorrentes da gestação e do parto’.

REPERCUSSÃO

Para o ministro Luiz Fux, relator do recurso, a questão apresenta repercussão geral do ponto de vista social, em razão da natureza do direito à licença-maternidade e do impacto gerado pela sua extensão a qualquer servidora pública ou trabalhadora que vivencie a situação jurídica em exame.

Do ponto de vista jurídico, o ministro observa que a discussão envolve a proteção especial à maternidade, e, do econômico, trata da concessão de benefício de natureza previdenciária, com custos para a coletividade.

Ainda segundo o relator, ‘o debate transcende os limites individuais da causa e é passível de repetição em inúmeros casos em que se confrontam o interesse da mãe não gestante em união homoafetiva de usufruir da licença-maternidade e o interesse social concernente aos custos do pagamento do benefício previdenciário e à construção de critérios isonômicos em relação às uniões heteroafetivas’.

A manifestação do relator de considerar constitucional a questão e reconhecer a existência de repercussão geral foi seguida por maioria, vencido o ministro Edson Fachin.

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