Supremo reafirma que cargos em comissão só para funções de chefia e assessoria

Supremo reafirma que cargos em comissão só para funções de chefia e assessoria

Em julgamento de recurso com repercussão geral, Plenário Virtual confirmou entendimento da Corte de que as atribuições dos cargos de livre escolha devem guardar 'vínculo de confiança entre a autoridade nomeante e o servidor nomeado'

Redação

02 Outubro 2018 | 11h23

Plenário do STF. Foto: Carlos Moura/SCO/STF-20/6/2018

O Supremo reafirmou sua jurisprudência dominante no sentido de que a criação de cargos em comissão somente se justifica para o exercício de funções de direção, chefia e assessoramento, ‘não se prestando ao desempenho de atividades burocráticas, técnicas ou operacionais’. O tema é objeto do Recurso Extraordinário (RE) 1041210, que teve repercussão geral reconhecida e julgamento de mérito no Plenário Virtual.

As informações foram divulgadas no site do Supremo – Processo relacionado: RE 1041210

No caso dos autos, o Tribunal de Justiça de São Paulo julgou inconstitucional dispositivos da Lei Municipal 7.430/2015 de Guarulhos (SP) que criavam 1.941 cargos de assessoramento na administração municipal.

Segundo o acórdão do TJ paulista, as funções descritas para os cargos teriam caráter eminentemente técnico e burocrático, ‘sem relação de confiança’, e que, por este motivo, só poderiam ser providos por meio concurso público.

No recurso ao Supremo, a prefeitura de Guarulhos sustentou que o município ‘atuou dentro da sua autonomia conferida pela Constituição Federal para criar e extinguir cargos, organizar sua estrutura administrativa e dispor sobre o regime de seus servidores’.

A prefeitura alegou que a criação dos cargos ‘é necessária à administração, não visa burlar o princípio do concurso e suas atribuições não têm natureza técnica’. Ressaltou que a quantidade de cargos ‘está limitada a um percentual convencionado com o Ministério Público em anterior termo de ajustamento de conduta’.

Manifestação

Em sua manifestação no Plenário Virtual, o ministro Dias Toffoli afirmou que o tema tratado no recurso tem relevância jurídica, econômica e social, uma vez que trata dos requisitos para a criação de cargos em comissão, envolvendo a aplicação de princípios constitucionais tais como o do concurso público, da moralidade pública, da igualdade, da impessoalidade, da eficiência e da economicidade.
Quanto ao mérito da controvérsia, Toffoli observou que o Supremo já se ‘debruçou sobre a questão por diversas vezes’ e o entendimento da Corte é no sentido de que a criação de cargos em comissão somente se justifica quando suas atribuições, entre outros pressupostos constitucionais, sejam adequadas às atividades de direção, chefia ou assessoramento, sendo inviável para atividades meramente burocráticas, operacionais ou técnicas.

O ministro destacou que, como esses cargos são de livre nomeação e exoneração, ‘é imprescindível a existência de um vínculo de confiança entre a autoridade nomeante e o servidor nomeado para o desempenho da atividade de chefia ou assessoramento’.

“Esses requisitos estão intrinsecamente imbricados, uma vez que somente se imagina uma exceção ao princípio do concurso público, previsto na própria Constituição Federal, em virtude da natureza da atividade a ser desempenhada, a qual, em razão de sua peculiaridade, pressupõe relação de fidúcia entre nomeante e nomeado”, argumentou o relator.

Toffoli ressaltou que as atribuições inerentes aos cargos em comissão devem observar, também, a proporcionalidade com o número de cargos efetivos no quadro funcional do ente federado responsável por sua criação, além da utilidade pública.

O ministro observou que as atribuições dos cargos devem, obrigatoriamente, estar previstas na própria lei que os criou, de forma clara e objetiva, não havendo a possibilidade de que sejam fixadas posteriormente.

“Daí ser imprescindível que a lei que cria o cargo em comissão descreva as atribuições a ele inerentes, evitando-se termos vagos e imprecisos”, enfatizou.

A manifestação do relator quanto ao reconhecimento da repercussão geral foi seguida por maioria, vencido o ministro Marco Aurélio.

No mérito, a posição de Toffoli pelo desprovimento do Recurso Extraordinário e pela reafirmação da jurisprudência pacífica da Corte foi seguida por maioria, vencido, também neste ponto, Marco Aurélio.

A tese de repercussão geral fixada foi a seguinte:

a) A criação de cargos em comissão somente se justifica para o exercício de funções de direção, chefia e assessoramento, não se prestando ao desempenho de atividades burocráticas, técnicas ou operacionais;

b) tal criação deve pressupor a necessária relação de confiança entre a autoridade nomeante e o servidor nomeado;

c) o número de cargos comissionados criados deve guardar proporcionalidade com a necessidade que eles visam suprir e com o número de servidores ocupantes de cargos efetivos no ente federativo que os criar; e

d) as atribuições dos cargos em comissão devem estar descritas, de forma clara e objetiva, na própria lei que os instituir.

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