Supremo manda para Moro investigação sobre pastor aliado de Eduardo Cunha

Supremo manda para Moro investigação sobre pastor aliado de Eduardo Cunha

Presidente da Assembleia de Deus Ministério Madureira Samuel Cássio Ferreira é suspeito de lavagem dinheiro relativo a parte da propina de US$ 5 milhões paga ao ex-presidente da Câmara no esquema de corrupção na Petrobrás

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo

12 de maio de 2016 | 04h28

Eduardo Cunha. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Eduardo Cunha. Foto: Wilton Júnior/Estadão

A igreja evangélica Assembleia de Deus Ministério Madureira em São Paulo e seu presidente Samuel Cássio Ferreira entraram na mira da Lava Jato. Nesta quarta-feira, 11, o plenário do Supremo Tribunal Federal decidiu manter a decisão do ministro Teori Zavascki de março que determinou a remessa para o juiz Sérgio Moro investigação envolvendo a suspeita de lavagem de dinheiro para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) por meio da igreja e do pastor.

No julgamento, os ministros da Corte rejeitaram o argumento da defesa da igreja que alegou que o caso deveria ser analisado pela Justiça Federal em São Paulo, onde fica a sede da Assembleia de Deus presidida por Samuel Ferreira.

Essa investigação é um desdobramento da denúncia criminal contra Eduardo Cunha, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, que o Supremo já aceitou no ano passado. Na denúncia, a Procuradoria-Geral da República aponta que o peemedebista teria usado a igreja para operacionalizar o repasse de parte da propina de US$ 5 milhões recebida por ele referente à contratação de dois navios-sonda da Petrobrás. Janot não fez acusação contra nenhum representante da igreja, presidida pelo pastor Samuel, que agora passa a ser investigado por Sérgio Moro.

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A decisão do Supremo acata o pedido de Janot. O procurador argumentou que a investigação envolve lavagem de dinheiro e alvos sem prerrogativas de foro, por isso deveria ser remetida ao juiz da Lava Jato no Paraná.

Na ação contra o peemedebista, Janot detalha as negociações de Cunha e Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema de corrupção instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014, para receber o pagamento. O procurador afirma que o lobista Julio Camargo, que afirma ter pago a propina milionária a Eduardo Cunha, foi orientado a fazer ‘doações’ para a igreja para quitar parte do débito.

A Polícia Federal e a Procuradoria identificaram duas transferências em agosto de 2012 para a Assembleia de Deus via empresas de Júlio Camargo, a Piemonte e a Treviso, no valor de R$ 125 mil cada. O dinheiro teve como destino uma filial da Assembleia de Deus Ministério Madureira em Campinas, no interior de São Paulo. Os repasses.tiveram como ‘falsa justificativa pagamento a fornecedores’, segundo Janot.

Na acusação, o procurador-geral afirma ainda que ‘não há dúvidas de que referidas transferências foram feitas por indicação de Eduardo Cunha para pagamento de parte do valor residual da propina referente às sondas’. A denúncia ainda ressalta que Júlio Camargo nunca frequentou a igreja evangélica e ‘professa a religião católica’, além de nunca ter feito doações para a Assembleia de Deus antes deste episódio.

Em fevereiro de 2015, Cunha chegou a participar de um culto de mais de duas horas em comemoração a sua eleição para a Presidência da Câmara junto com outros políticos na Assembleia de Deus Madureira, no Rio de Janeiro. Na ocasião ele declarou ter trocado a Igreja Sara Nossa Terra pela Assembleia de Deus Madureira.

A bancada evangélica foi uma das que mais prestou apoio a Cunha na eleição para a Presidência da Câmara. O presidente da Assembleia de Deus Madureira no Rio, pastor Abner Ferreira, contemplou o presidente da Câmara no culto. “O Satanás teve que recolher cada uma das ferramentas preparadas contra nós. Nosso irmão em Cristo é o terceiro homem mais importante da República”, disse o religioso na época. Abner Ferreira é irmão do pastor Samuel Ferreira, que preside a Assembleia de Deus no Brás, em São Paulo, e aparece no registro da Receita Federal como presidente da Assembleia de Deus Madureira em Campinas, que recebeu os R$ 250 mil das empresas de Júlio Camargo.

A reportagem tentou contato com a assessoria de Samuel Ferreira, mas ninguém atendeu. O espaço está aberto para a manifestação da igreja.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE EDUARDO CUNHA:

” Desconheço isso e não recebi qualquer vantagem indevida de quem quer que seja.”