Superciclo de commodities: maldição?

Superciclo de commodities: maldição?

Sílvio Ribas*

22 de fevereiro de 2021 | 04h30

Sílvio Ribas. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Analistas experientes já estão anunciando a volta do fenômeno econômico global que, em sua última passagem, na primeira década dos anos 2000, injetou US$ 100 bilhões na economia brasileira. Os sinais ficaram claros ao longo da pandemia, com as mineradoras e o agronegócio brasileiro batendo recordes de lucros e volumes despachados para o exterior.

Para se ter uma ideia dos impactos já percebidos, a Vale registrou um ganho líquido de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre de 2020, mais que o dobro dos R$ 6,5 bilhões registrados em igual período do ano passado. Outro exemplo é o desempenho impressionante da safra brasileira de 2020/2021, que deve fazer o valor bruto da produção agropecuária (VBP) ultrapassar o marco histórico de R$ 1 trilhão, batendo os R$ 885,8 bilhões de 2019/2020.

Esse mesmo boom exportador de matérias-primas, com minério de ferro e soja à frente e destinadas na maior parte para a China, foi o que deu raro conforto fiscal ao governo federal entre 2005-2010, estimulando os gastos com programas sociais e subsídios, afrouxamento do crédito ao consumidor e conferindo popularidade histórica ao então presidente Lula, na casa de 80%. A visão imediatista dos gestores públicos e o oportunismo político se apropriaram dessa janela de oportunidade.

Essa foi a grande bonança desperdiçada pelo país (mais uma) para se fazer reformas estruturantes, suportar melhor os tempos de vacas magras e, o mais importante, preparar um futuro de prosperidade sustentável, com diversificação do parque produtivo, investimento em infraestrutura, simplificação do sistema tributário, agregação de valor na lista de itens exportados, aumento da produtividade da mão de obra etc.

Estamos agora diante de novo ciclo de forte valorização de commodities, que chegam ao país no período de sua pior situação fiscal, social, econômica e até sanitária. Se não fossem a boa performance exportadora do campo e das minas, o Brasil estaria atravessando uma crise combinada ainda mais aguda. Do café ao níquel, são muitos os produtos, incluindo aqueles que o país é campeão mundial em produção e exportação, que trazem alento.

Mas o que parece ser uma dádiva em meio a tanta tragédia provocada pela pandemia da Covid-19, também nos provoca necessárias reflexões. De cara, ficou evidente que ainda somos muito sensíveis a cenários externos e carentes de apetite mundial pelos bens mais básicos e crus. Depois, vimos que corremos sempre o risco de interpretar ganhos setoriais momentâneos como obra de supostos acertos de governos de plantão. É a tal lógica de mirar eleições em vez de cuidar das gerações.

Por fim, sacamos sempre tardiamente que ambições políticas acabam por gerar distorções ainda maiores diante da temporária fartura financeira ou meramente contábil, sendo o melhor e mais dramático exemplo disso o descalabro após a descoberta do pré-sal, naquela mesma época, quando o barril do petróleo foi para as alturas. O que era para ser progresso real e duradouro redundou em populismo, estatismo e corrupção. Como dinheiro na mão é vendaval, torramos bilhete premiado e endividamos os netos.

Breves confortos econômicos alimentam a velha procrastinação brasileira. Nosso sistema político parece condenado a tomar decisões inadiáveis somente no último estágio da emergência. Qualquer melhora no horizonte parece chance de relaxar, tal qual se teme o abandono de controles pós0chegada da vacina contra o coronavírus.

Passivo histórico

É desconcertante ver uma economia do tamanho e complexidade da nossa com 60% de sua produção escoada por rodovias esburacadas e estreitas, convivendo com doenças endêmicas, com metade da população sem saneamento básico e sob risco de desabastecimento de energia à cada período prolongado de estiagem. Não dá mais para empurrar com a barriga a redução de tamanho e de despesas do Estado. A pressa necessária é dada pelo momento e também pelas dívidas sociais históricas.

O novo superciclo de commodities, o quinto desde o século 20 é, pois, bem-vindo. Ele será essencial para a retomada econômica, que já vem sendo puxada globalmente por estímulos monetários e alta de gasto público. Mas a boa nova não deveria resultar só em alívio parcial, mas em cura para males profundos ou futuros. Temos de ser formiga e não cigarra, cioso e não inconsequente, para que dádiva não vire dívida nem repetida maldição.

*Sílvio Ribas, jornalista, assessor parlamentar, escritor e consultor

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.