Suicídio: vamos conversar com as nossas crianças e adolescentes

O que pode auxiliar na prevenção do suicídio é uma conversa aberta, genuína, sem pressa e sem julgamento e a partir disso o encaminhamento para um profissional de saúde mental

Renata Bento*

03 de outubro de 2019 | 10h00

Foto: Renata Bento/Arquivo Pessoal

O que leva um adolescente com um futuro inteiro pela frente, que tem uma vida externa aparentemente organizada, que por exemplo, frequenta boas escolas ou que vive uma vida abastada a pensar em morte e a se matar? Teria um jovem com menor poder aquisitivo “motivos” para tirar a própria vida por não ter externamente mais recursos? De quais recursos estamos falando, internos ou externos? Essas são perguntas difíceis de responder porque não existem respostas prontas. Ainda assim é importante ressaltar que qualquer família está sujeita a passar por isso; e que situação financeira abastada, presentes, viagens não funcionam como blindagem para boa saúde de mental.

Vale também esclarecer que o suicídio é algo singular e que ocorre de dentro para fora e não ao contrário, é algo interno ao sujeito. Mas se ouve dizer: “o fulaninho (a) tem tudo, como pode se sentir assim”? Vamos tentar olhar para como a pessoa se sente sem julgamento e sem frisar as riquezas externas, é um olhar para dentro.

O que pode auxiliar na prevenção do suicídio é uma conversa aberta, genuína, sem pressa e sem julgamento e a partir disso o encaminhamento para um profissional de saúde mental, isso pode ajudar no resgate da esperança e na manutenção do viver. Os dados atuais indicam que nos últimos dez anos o suicídio de crianças entre dez e catorze anos aumentou quarenta por cento enquanto que de quinze a dezenove anos teve um aumento em torno de quase trinta e quatro por cento. Esse índice é maior que o aumento do suicídio geral no país.

A infância é o alicerce para a vida adulta e a adolescência é uma espécie de travessia, como uma ponte que liga a infância a vida adulta. Nessa passagem para a vida adulta o adolescente cruza essa “ponte” sem ainda ter condições de se defender sozinho, e, pode ser um momento de muita angustia, principalmente se há um vazio interno muito significativo. Entender os sinais também não é algo simples, é um desafio, porque muitos deles podem se confundir com a própria fase da adolescência.

Em algum momento da vida qualquer pessoa já pode ter tido vontade de morrer, isso não significa que irá se matar. O que vai ligar o sinal de alerta é a frequência em que se pensa e se fala. É importante investigar a ideação suicida, digo, se essa ideia fica frequentemente pulsando na mente..

Quanto aos fatores de risco é importante destacar: problemas escolares com piora no desempenho, aumento do uso de drogas, isolamento, aumento de queixas físicas, perda de interesse por algo ou atividade que sentia prazer antes, tristeza profunda, maior agressividade, alterações de apetite e sono, tédio constante, bullying, mudanças bruscas de comportamento, separação conturbada dos pais, comportamento autodestrutivo (cortar-se, se por em risco físico). Além disso é importante verificar se não há sinais de depressão que pode se manifestar de formas diferentes entre meninos e meninas. Nos meninos nota-se comportamento mais agressivo e irritabilidade e nas meninas deve se estar atento a baixa autoestima, sentimentos de menos valia, inferioridade, autodepreciação, sentimento de impotência e comparação excessiva. Outro dado importante é estar atento ao que o jovem publica nas redes sociais, já que a internet pode representar uma projeção do que aquele adolescente está sentindo

Por fim é importante ressaltar que tanto o suicídio quanto a depressão são questões multifatoriais. O primeiro tem a ver com o resultado da interação entre fatores psicológicos, ambientais, culturais, sociológicos, entre outros e a depressão também, por diversos fatores, sejam eles: predisposição genética, ambiente potencializador; ou seja, situações adversas que o sujeito vivencia e que podem funcionar como gatilho de algo que já estava ali. Não hesite em procurar tratamento psicológico ou orientação familiar especializada, caso se perceba em sofrimento ou ainda se observar algum desses comportamentos de risco em crianças ou adolescente.

*Psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a IPA – Internacional Psychoanalytical Association, a FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e a FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise.

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