Suíça bloqueou fortuna de US$ 67 milhões de Barusco antes de delação

Suíça bloqueou fortuna de US$ 67 milhões de Barusco antes de delação

Ex-gerente de Engenharia da Petrobrás, alvo da Lava Jato que depõe hoje na CPI, teve fortuna em propina escondida congelada por causa de investigação de 2013 da Holanda no caso SBM

Redação

10 de março de 2015 | 10h36

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Fausto Macedo

O ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco – mais organizado dos delatores da Operação Lava Jato, no registro contábil da propina na Petrobrás – entregou à Justiça Federal cópias de ordens de bloqueio das contas, que ele operava em bancos da Suíça, por onde passaram uma fortuna de US$ 67 milhões.

São extratos bancários e anotações sobre os valores, as contas e empresas offshores usadas por Barusco no esquema de corrupção na Petrobrás. Pelo menos cinco meses antes de fechar acordo de delação premiada com a força-tarefa da Lava Jato, o ex-gerente soube que todo patrimônio que havia acumulado em mais de dez anos de corrupção na estatal, estava congelado.

Pedro Barusco. Foto: Divulgação

Pedro Barusco. Foto: Divulgação

Alvo de investigação aberta na Holanda em 2013, por corrupção de agente público estrangeiro e lavagem de dinheiro, Barusco foi um dos funcionários da Petrobrás que recebeu propina da holandesa SBM Offfshore – uma das maiores empresas do mundo na área de navios-sondas.

“Nossa análise preliminar de 86 arquivos sugere que aproximadamente US$ 67,4 milhões em ativos, em moeda e títulos, foram transferidos para e das contas na Suíça de Barusco Filho”, informa o Ministério Público da Confederação da Suíça, nas duas ordens de bloqueio de contas de Barusco – “Séquestre, renseignements et obligation de dépôt”. Os documentos foram entregues pelo delator à Lava Jato.

“Entre 2003 e 2013 a SBM pagou comissões num total de US$ 77,6 milhões para companhias controladas por Julio Faerman, representante da SBM no Brasil, juntamente com seus sócios.” Alvo agora da Lava Jato, como um dos operadores de propina na Diretoria de Serviços, Faerman é acusado de ter repassado parte desse montante para Barusco.

“Entre 2003 e 2013, Faerman teria transferido US$ 22 milhões para contas na Suíça controladas por Pedro José Barusco Filho, Diretor (gerente) de Engenharia da Petrobrás”, informa o documento do Ministério Público da Confederação Suíça assinado procurador federal Luc Leimgruber.

Trecho de decisão da Suíça com bloqueio de contas / Reprodução

Trecho de decisão da Suíça com bloqueio de contas / Reprodução

A autoridade suíça registra que “a origem desses fundos não está plenamente determinada” e solicitou a entrega de documentos. No item “Análise de giro financeiro”, o Ministério Público da Confederação Suíça afirma que: “Documentos relacionados à transferência de títulos entre contas não revelam detalhes dos remetentes. Além disto, as instruções para fechamento de contas e transferência de todos os seus ativos para uma outra conta nem sempre foram acompanhados por suas ordens de débito ou crédito correspondentes”.

A investigação na Holanda, que foi resumida no pedido de bloqueio, cita que a propina pode estar relacionada ao contrato de US$ 3,5 bilhões que a SBM fechou em 2013 com a Petrobrás, para a construção de duas plataformas – a Cidade de Saquarema e a Cidade de Maricá, no Rio. “Para conseguir tal contrato a SBM teria pago US$ 139 milhões a intermediários e funcionários da Petrobrás”, registra o documento de bloqueio.

As ordens da autoridade suíça foram dirigidas, em junho e julho de 2014, ao Royal Bank of Canada e ao Pictet & Cie S.A. Barusco, segundo confessou, usava ainda outros três instituições suíças, o Banque Cramer, o Banque J. Safra Sarasin e o PKB.

Plano frustrado. Barusco tomou conhecimento que seu patrimônio oculto estava congelado, pelo menos a partir de março de 2014 quando ele deflagrou uma operação de salvamento dessa fortuna milionária.

O ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa havia sido preso pela Operação Lava Jato. Espécie de contador da propina arrecadada na Diretoria de Serviços – via ex-diretor Renato Duque -, Barusco sabia que as mesmas acusações que pesavam sobre Costa poderiam atingir sua área. As diretorias de Abastecimento e de Serviços eram controladas pelo PP e PT, respectivamente, dentro do esquema de corrupção desbaratado no Brasil.

Depois de acionar três operadores do esquema alvo da Lava Jato – o suíço Bernardo Freiburghaus (ligado à Odebrecht, segundo delatores), Júlio Camargo (representante das japonesas Toyo e Samsung) e Julio Faerman (representante da holandesa SMB) -, ele iniciou o plano de abrir novas contas, em nomes de outras offshores, em bancos distintos.

“Essas mudanças (de contas) em 2014 se deram em razão de investigação relacionada à SBM”, explicou Barusco. Ele afirmou que tentou “organizar e blindar as contas” e fazer “um trustee” para fazer “doações de 30% para instituições de caridade, 30% para a esposa atual e 30% para os seus filhos”.

Mas era tarde. As operações de transferências chegaram a se efetivar, em alguns casos, como nos US$ 11 milhões que ele tinha no Banco Safra, em nome da offshore Dole Tech Inc – criada em janeiro de 2005.

Barusco contou em sua delação premiada que abriu outra offshore, a Ibiko Consulting S.A., no Banco PKB, e que conseguiu efetivar a transferência por intermédio de Freiburghaus. O valor, no entanto, foi bloqueado na conta de destino, pelas autoridades da Suíça. Em outros casos, o bloqueio ocorreu antes mesmo da transferência ser efetivada.

Encurralado pelas autoridades da Holanda e da Suíça, por conta do escândalo SBM, e a espera de se tornar o próximo alvo da Lava Jato, Barusco fechou acordo de delação premiada, em novembro do ano passado, para tentar uma redução de pena.

Sua confissão como contador e arrecadador de propina na Diretoria de Serviços tem sido fundamental para investigadores da Lava Jato fecharem o cerco contra seu ex-chefe Renato Duque – que chegou a ser preso em 14 de novembro, mas foi solto dias depois, após recurso no Supremo Tribunal Federal (STF).

A advogada Beatriz Catta Preta, que defende Barusco, afirmou que “todos os valores que o sr. Pedro Barusco têm no exterior estão sendo repatriados espontaneamente por conta da delação premiada.”

Faerman não foi encontrado.

Tradução de Terezinha Martino

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