Sucessora de Moro na Lava Jato interroga delatores da Odebrecht em ação contra Lula

Sucessora de Moro na Lava Jato interroga delatores da Odebrecht em ação contra Lula

Em seu primeiro ato no comando das ações penais da operação, Gabriela Hardt, juíza substituta da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, tomou os depoimentos dos executivos Carlos Armando Paschoal e Emyr Diniz Costa Júnior no processo sobre o sítio de Atibaia (SP) no qual o ex-presidente é réu por lavagem de dinheiro e corrupção

Ricardo Brandt e Julia Affonso

05 Novembro 2018 | 17h37

Sítio frequentado pelo ex-presidente Lula em Atibaia. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

A juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sérgio Moro nos processos da Operação Lava Jato, em Curitiba, interrogou nesta segunda-feira, 5, dois delatores da Odebrecht. Os engenheiros Emyr Diniz Costa Júnior e Carlos Armando Guedes Paschoal foram ouvidos no processo contra o ex-presidente Lula e outros investigados e confirmaram as obras no sítio de Atibaia. O petista é réu neste processo por supostamente ter recebido propinas da empreiteira na forma de melhorias do sítio.

Moro deixou a Lava Jato após aceitar o convite do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) para assumir o comando do Ministério da Justiça, que terá status de superministério. Nesta segunda, 5, o juiz enviou um ofício ao corregedor do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região informando que entrou em férias e que vai se exonerar ‘logo antes da posse’ como ministro.

Emyr Diniz Costa Júnior foi o primeiro investigado a ser ouvido por Gabriela Hardt após a saída de Moro. O engenheiro relatou que, em 2010, era responsável pelas obras de uma estação de tratamento de esgoto que ficava na divisa entre São Caetano e São Paulo. O delator contou que, na época, o diretor superintendente da região São Paulo e Sul, Carlos Armando Paschoal, seu superior, o chamou no escritório central da empresa.

“Me disse que precisava que eu destacasse um engenheiro de confiança para que a gente fizesse uma reforma num sítio em Atibaia, que seria usado pelo presidente Lula na época e que eu procurasse, na época, uma pessoa designada Aurélio, Rogério Aurélio, e que me passou um papelzinho com seu telefone para que eu pudesse mandar na época, então, o engenheiro Frederico”, narrou.

Gabriela Hardt o questionou. “Quando o sr Carlos chamou já foi dito que era uma obra num sítio para o presidente?”

“Isso, exatamente”, respondeu.

A juíza quis saber. “Já no primeiro contato o sr já sabia que a obra era para o sr presidente à época e dentre as atribuições que o sr tinha até então com 25 anos de casa, o sr já tinha feito alguma tarefa semelhante?”

“Não, não”, afirmou. “Nunca tinha trabalhado em obra de edificação, tampouco tinha feito reformas por favor, nem a favor de ninguém.”

Emyr Diniz da Costa Júnior disse à juíza que sua ‘maior preocupação’ na obra do sítio era que houvesse um acidente de trabalho. “Eu sabia que a gente estava fazendo uma coisa que já não era certa. Se tivesse um acidente de trabalho lá, então, a coisa complicava. Dei graças a Deus que a gente terminou a obra”, afirmou.

De acordo com o delator, durante uma reunião com ‘Aurélio’, ele lhe pediu que fossem feitas algumas obras. Emyr Diniz Costa Júnior afirmou que nunca esteve com Lula e que o ex-presidente nunca lhe pediu para fazer obra no sítio.

“O sr Aurélio pediu que as seguintes obras fossem feitas: logo na entrada do sítio, do lado esquerdo, construir uma casinha de quarto e sala e uma quitinete, uma cozinha para hospedagem da segurança do sr presidente quando ele fosse lá, pediu que construíssem 4 suítes, que era uma obra que já tinha sido iniciada, já estava com a fundação e a estrutura metálica pronta, eram 4 suítes, pediu quer a gente terminasse dois depósitos que um depois eu fiquei sabendo que a adega do sr presidente e o outro era um quarto de empregada e, além disso, a reforma da piscina que estava em vazamento, queria que fosse maior, fazer uma parte mais rasinha, pediu que a gente fizesse o alambrado e o gramado de um campo de futebol que tinha lá e pediu várias outras coisas que a gente não pode fazer”, disse.

“Eram obras que envolviam terraplanagem e, na época de dezembro, chove muito lá em São Paulo, e a gente falou que não dava tempo, que era aumentar o tamanho de uns lagos que tinha lá no sítio, queria que fizesse uma quadra de tênis, que a gente não podia fazer porque quadra de saibro não dá para fazer no inverno.”