Sua majestade, o consumidor

José Renato Nalini*

03 de julho de 2021 | 05h30

Todos somos consumidores. Vivemos numa sociedade de consumo. O conceito de consumo tende a se ampliar. Consumíveis não são apenas os produtos fabricados pelas empresas, mas também os serviços prestados. Existe quem sustente sermos consumidores daquilo que a gestão pública nos fornece. O tema ainda vai render estudos e reflexão.

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O importante é ter noção de que o consumidor impõe as regras ao mercado. O cliente sempre tem razão. Precisa estar satisfeito. As necessidades humanas são infinitas e suscetíveis a uma crescente sofisticação, fruto mercadológico. A consequência natural é exigir que esse mercado seja responsável.

Faz parte da democracia capacitar o cidadão a ser um consumidor consciente. A agenda ESG pode colaborar com isso. O aspecto ambiental, o que mais me seduz porque é o mais vulnerável e desprotegido, ganharia outra tutela, mais reforçada, se o consumidor ficasse atento àquilo que lhe é fornecido.

Tomamos conhecimento de ocorrências preocupantes e que merecem pronta atuação do governo. Um relatório do IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, apurou que boa parte dos alimentos ultraprocessados no Brasil contêm agrotóxicos. São exatamente aquelas guloseimas preferidas pelas crianças e jovens e costumeiramente utilizadas como lanche escolar. Salgadinhos, biscoitos, cereais, eles têm substância venenosa como o herbicida glifosato, utilizado para eliminar ervas daninhas na lavoura.

O uso de agrotóxicos foi flexibilizado no Brasil contra o meio ambiente instaurado há alguns anos. A consequência está aí. De 27 amostras analisadas em 8 categorias, 16 tinham resíduo de agrotóxico.

O problema é que esses agrotóxicos entram na cadeia alimentar e mesmo ingeridos em quantidades diminutas, acumulam-se no organismo das pessoas, principalmente nos tecidos ricos em gordura. Entre as consequências figuram câncer, doenças neurológicas, alterações comportamentais e perda cognitiva em escala populacional.

Pior ainda é que muitos desses produtos são comercializados como saudáveis, com mensagens tais como “contém vitaminas”, “mais energia para você”, o que é manifesta propaganda enganosa.
A divulgação mostrou que, dentre os cereais matinais, o Nesfit, fabricado pela Nestlé, os salgadinhos Torcida da Pepsico, os biscoitos Marilan, Vitarella, Triunfo, Zabet, os biscoitos recheados Bono, Negresco, Oreo e Trakinas, e as bisnaguinhas Pullman, Whickbold, Panco e Seven Boys, todos têm esse veneno embutido.

O resultado desse estudo desmitifica aquilo que é propalado pelas indústrias, de que os alimentos ultraprocessados estariam liberados de agrotóxicos ou que o processamento industrial é capaz de remover as substâncias nefastas. Vê-se que não é assim.

Espera-se que a Anvisa tome providências para que as empresas se ajustem às normas já existentes no mundo civilizado.

No mesmo cenário de proteção dos consumidores, noticia-se que a Suprema Corte dos EUA indeferiu um recurso da farmacêutica americana Johnson & Johnson e, portanto, manteve a condenação de 2,1 bilhões de dólares, como indenização pela venda de talco fabricado com produtos cancerígenos.

A poderosa marca havia recebido milhares de reclamações nos últimos anos, porque o seu talco trazia amianto, causador de câncer de ovário. A empresa sempre negara as acusações, mas veio a merecer inúmeras condenações na Justiça Americana e, O veredito da mais alta corte, não há como fugir ao ressarcimento das pessoas prejudicadas.

Contudo, existem também sinais promissores. Até nesta terra, tão negligente em relação aos desastres ambientais, surgem medidas que parecem refletir a tendência ecológica do Primeiro Mundo. Uma das questões que afligem o planeta é o descarte de resíduos sólidos. Nosso país é campeão em desperdício e pratica incipiente reciclagem. Com a pandemia, inúmeros consumidores se preocuparam com o excesso de embalagem e a resposta da Oka Bioembalagens é a fabricação de copinhos e tigelas a base de fécula de mandioca. Em contato com água ou terra, começam imediatamente a se decompor, processo que tem a duração de 30 dias.

Outro bom exemplo é o filme celulósico compostável da Celomax, que substitui celofane e alguns plásticos. É feito com celulose de eucalipto de reflorestamento e também se decompõe em 60 dias.

A eliminação da sacola plástica dos supermercados parece ter sido uma daquelas leis que “não pegam”, porque eles continuam presentes e as ruas são testemunhas da falta de educação ambiental do consumidor.

mais uma vez, enfatize se o valor inestimável da educação, chave para a resolução de todos os problemas brasileiros, sem qualquer excepção. o empresariado que aderiu ao conceito ESG tem de dar mais um passo e investir na educação de qualidade dos consumidores de seus produtos e serviços. a natureza e as futuras gerações agradecem.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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