‘Sua família mexe com bijuterias’, diz Cabral ao juiz que o condenou

‘Sua família mexe com bijuterias’, diz Cabral ao juiz que o condenou

Durante interrogatório nesta segunda-feira, 23, ex-governador do Rio desafia e provoca Marcelo Bretas, que ao final da audiência determinou sua transferência para uma prisão federal fora do Rio

Luiz Vassallo e Julia Affonso

23 de outubro de 2017 | 19h35

Sergio Cabral e Marcelo Bretas. Fotos: Fábio Motta / Estadão

Na audiência desta segunda-feira, 23, no âmbito da ação penal a que responde como réu por crime de lavagem de dinheiro por meio da compra de joias sofisticadas, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) desafiou abertamente o juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Criminal Federal, que, ao final da audiência, ordenou sua transferência para uma prisão federal fora do Rio.

O peemedebista declarou ter adquirido as joias ‘em datas comemorativas’ com dinheiro de caixa 2 de campanhas eleitorais.

E partiu para uma provocação direta e ostensiva ao magistrado que o condenou em duas ações penais a quase 60 anos de prisão. “Não se lava dinheiro comprando joias. Vossa Excelência tem um relativo conhecimento sobre o assunto e sua família mexe com bijuterias, senão me engano é a maior empresa de bijuterias do Estado, então Vossa Excelência conhece essa…”

O juiz o interrompeu. “Eu discordo da sua…”

Mas Cabral seguiu na ofensiva, revelando conhecimento de detalhes da rotina do magistrado. “São as informações que me chegaram.”

O juiz insistiu com o interrogatório. “Eu acho melhor fazer pergunta porque não quero saber do histórico da minha família, nem estou interessado em saber. O sr. comprou essas joias?”

“Comprei as joias, fruto de caixa 2 de campanha que Vossa Excelência não acredita. Eu fui o maior arrecadador, não foi fruto de propinas, o meu governo não foi uma organização criminosa. O sr. fala de uma maneira desdenhosa que eu não aceito.”

“Aqui não tem desdém, mas tem que ter respeito”, advertiu Marcelo Bretas.

“Mas tá tendo todo o respeito”, esquivou-se Cabral.

“Para começar isso não está nem nesse processo”, ponderou o magistrado.

Cabral voltou à carga e não poupou nem seus acusadores. “Eu sei Excelência, mas o raciocínio, eu leio os processos, eu leio a criatividade do Ministério Público em fatiá los em 12, 15, 16, 17 processos.”

Outra vez atacou o juiz. “O sr. tá encontrando em mim uma possibilidade de gerar uma projeção pessoal, me fazendo um calvário, me fazendo um calvário, claramente.”

O juiz argumentou. “Não recebi com bons olhos o interesse manifestado do acusado em informar que minha família trabalha com bijuteria, por exemplo, isso é o tipo da coisa que pode sublinarmente ser entendido como algum tipo de ameaça.”

“Ameaça? Eu tô preso”, retrucou o ex-governador. “Eu tô preso, Excelência.”

“O sr está preso.”

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