Startups, profissionais de tecnologia e a tempestade perfeita

Startups, profissionais de tecnologia e a tempestade perfeita

Clênio Luiz Cunha*

24 de abril de 2021 | 04h00

Clênio Luiz Cunha. FOTO: DIVULGAÇÃO

A tempestade perfeita é uma expressão usada para designar um contexto onde cenários muito improváveis e com potencial danoso se alinham para gerar uma situação desastrosa. Estamos na iminência de uma dessas movimentações e são esperados expressivos impactos no ecossistema de startups e inovação no Brasil.

Hoje temos 5,22 bilhões de pessoas com acesso a internet no mundo, esse número é maior do que toda a população do planeta no ano de 1986. Ao contrário de outras mídias com penetração massiva como o rádio e a TV, a internet é uma plataforma global e suas barreiras de entrada são mínimas; você não precisa de uma concessão do estado e dezenas de milhões em infraestrutura e pessoal para construir um negócio sobre ela. Temos um mercado massivo e acessível a qualquer um com uma ideia e vontade de explorar.

Nas últimas décadas vimos uma adoção crescente da internet como plataforma de negócio por empresas tradicionais (a tão falada transformação digital). Um movimento que vinha ganhando inércia com o empresariado receando ficar para trás ou serem “disruptados” como vimos nos hoje clássicos exemplos de Uber e Netflix que viraram de ponta cabeça suas respectivas indústrias. Mal sabíamos nós que em 2020 teríamos o maior disruptor de todos. A Covid-19 transformou uma vantagem estratégica em bote salva-vidas e de um mês para outro, todos os negócios precisam se digitalizar para se manterem operando no caos do isolamento social. Temos uma demanda incalculável por digitalização de negócios.

Você sabia que cerca de 40% da população do Vale do Silício é formada por estrangeiros? Não é uma casualidade, sempre foi política norte-americana a importação de gênios do restante do mundo. O vale só se sobressai em relação a outras regiões pelo crescimento intenso nas últimas décadas e demanda maior que a capacidade do sistema norte americano de fornecer profissionais de tecnologia no ritmo e com a qualidade que a demanda exige. Se o sistema norte-americano com as melhores universidades do mundo não consegue suprir a demanda, imagine a situação no Brasil com séculos de sub-investimentos em educação. Temos uma carência brutal na formação de profissionais capacitados para o mercado de tecnologia.

O que acontece quando temos um mercado gigante com muito dinheiro disponível para investimento, demanda sem precedentes por profissionais/carência de mão de obra qualificada no mundo inteiro e ausência de barreiras geográficas para o trabalho? Para uma startup, a tempestade perfeita: um cenário de oferta limitada de profissionais e demanda extremamente alta que gera uma hiper valorização dos profissionais e uma competição enorme por talentos.

Se formou uma verdadeira cadeia alimentar para contratação de profissionais com perfil tech. Imagine uma pirâmide onde as posições mais altas têm acesso a todos os profissionais das posições inferiores:

Topo da pirâmide: as big techs (Google, Facebook, Microsoft) com seus bilhões em caixa e marcas conhecidas mundialmente;

2° segunda etapa: grandes empresas tradicionais em processo de digitalização, unicórnios e vedetes com grandes aportes de investimentos;

3° segunda etapa: startups com modelo de negócio validado e caixa com fluxo sustentável;

Base da pirâmide: Startups em incubação e pequenos negócios digitais.

O topo da pirâmide se digladia pelo suprassumo da produção acadêmica mundial e talentos emergentes de empresas abaixo na pirâmide. Os desgarrados na peneira da ‘Série A’ são recebidos com muito carinho pelos negócios na etapa 2 que por sua vez complementa a base de colaboradores seduzindo os profissionais capacitados e validados por empresas na etapa 3. Essa última a duras penas qualifica recém-formados regionais e autodidatas performáticos além de capturar júniors das startups em fase de formação ou natimortas. A base da pirâmide sobrevive de fundadores técnicos e proximidade com indivíduos com pouca ou nenhuma experiência.

Essa dinâmica é especialmente nociva para os dois últimos estágios em que os competidores não têm recursos para brigar por profissionais formados, travando de maneira perigosa o crescimento. Com isso, temos um possível efeito dominó para a cadeia. Se o sistema de ensino não forma o suficiente e a base da pirâmide não tem insumos para rampar profissionais independentemente, eventualmente teremos problemas no fluxo de geração de valor, as empresas morrerão antes de alcançarem seu potencial de entrega e perderemos mais um ponto de qualificação de profissionais na cadeia.

Carência de profissionais qualificados não é um problema novo e fomento a educação direta ou indiretamente por parte da iniciativa privada sempre existiu no ecossistema, porém, através de ações pontuais que nem de longe são suficientes. Precisamos regular o sistema de ensino e precisamos fazer isso já. Esperar o Estado não é mais uma opção, teremos danos irreversíveis em nossos negócios e no ecossistema a médio e longo prazo.

Precisamos de uma coalizão, uma joint-venture, uma associação… Precisamos nos unir e discutir um projeto sério a nível nacional com base na iniciativa privada. O Brasil é gigantesco, e gente com capacidade para nos tornar uma potência tech global não falta.

*Clênio Luiz Cunha, fundador e CGO da AutoForce

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.