Startups brasileiras na COP-26

Startups brasileiras na COP-26

José Renato Nalini*

02 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O encontro em Glasgow terá startups com propostas verdes, para compensar a ausência de propostas concretas do governo brasileiro. A condição de “pária ambiental”, com o recrudescimento do extermínio da cobertura vegetal em todos os biomas, deixa sem discurso o Estado. Ao menos a União. Para conforto dos seres sensíveis e amigos da natureza, é a vez do protagonismo de governos subnacionais, como aqueles dos Estados-membros e dos municípios. Entidades que compõem a Federação brasileira e que podem e devem participar dessa reunião de cúpula.

Mas o brilho estará com a iniciativa privada. Esta vai muito bem quando o Estado não interfere com suas atividades. Quem não tem por si o Erário, que aguenta todos os desaforos, tem de ser criativo, audaz e corajoso. É o que acontece com algumas empresas que ali estarão.

Uma delas é de Jundiaí, meu berço natal. O empreendedor Rogério Cavalcante parte da premissa de que um pisão bem dado pode impedir que o fogo se propague. Ele diz que “todo incêndio começa podendo ser apagado com o pé. Criou a “Um Grau e Meio”, empresa que monitora focos de incêndio em plantações e matas nativas. O processo é a instalação de câmeras que localizam ocorrências num raio de quinze quilômetros. Com isso, aquilo que demoraria horas para ser detectado o é em alguns minutos.

Além da “Um Grau e Meio”, outras quatro startups foram selecionadas para se apresentarem na COP-26, a Conferência da ONU sobre mudanças climáticas: são a Eco Panplas, Tesouro Verde, Lemobs e Scipopulis, que mereceram reportagem de Daniela Arcanjo na FSP de 13 de outubro. Todos concorrem à oportunidade de expor sua criatividade para a liderança mundial reunida na Escócia.

De olho na inovação, a ONU criou o projeto Programa Global para Empresas em Crescimento, ideia da CivTech Alliance, rede formada para intercâmbio de experiências em gestão pública.

Dezoito projetos foram escolhidos em dez países, na área de resiliência ambiental, que pode cuidar de reaproveitamento da terra, redução do desperdício de alimentos e descarbonização do transporte. Tudo inspirado pelo conceito ESG, com ênfase no aspecto ambiental, até porque a natureza é o elo mais frágil e mais ameaçado dessa tríade.

O Brasil tem trezentas e quinze startups que tratam da questão ecológica, trinta e cinco a mais do que aquelas que se enquadram na categoria social e quarenta a mais do que as que contemplam a governança corporativa.

A Eco Panplas se dedica à reciclagem de plástico contaminado. Não é necessário o uso de água para descontaminar embalagens de óleo lubrificante. De acordo com Felipe Cardoso, fundador da startup, cada litro de óleo contamina um milhão de litros de água. Além de economizar esse líquido essencial para a subsistência de qualquer espécie de vida, o sistema utilizado permite a recuperação do óleo que se transforma em subproduto vendável. A empresa é sediada em Hortolândia, a cidade próxima a Campinas, que tem um grande complexo prisional.

A Lemobs é uma startup cuja atuação visa evitar o desperdício de alimentação. Ela desenvolveu um software que otimiza a logística de produção de refeições em escolas públicas. Foi um dos projetos direcionados à gestão pública, desenvolvido no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que tem o programa GovTech. O fundador Sérgio Rodrigues explica que havia muito desperdício de comida, porque o processo era inteiramente manual. Com o mapeamento das necessidades, inclusive as especiais, a solicitação de alimentos é calcada em dados racionais. Evita-se o excesso de descarte de boa comida, que sequer podia ser destinada a quem tem fome, diante de uma legislação rígida, editada para evitar o comprometimento da saúde dos alimentandos.

A quarta startup é a Tesouro Verde, iniciativa da Secretaria da Fazenda de Goiás e do programa Mata Viva. Utiliza-se do blockchain para identificar matas nativas e quantificar sua potencialidade para a venda de créditos de carbono. Isso é que deveria ser feito em todo o Brasil que ainda não foi calcinado pelos dendroclastas.

Há trilhões de dólares à espera de que programas assim possam oferecer a certeza de que a cobertura vegetal permanecerá intocável, para ajudar a reduzir os efeitos nefastos dos gases venenosos causadores do efeito-estufa, que transforma o clima em vilão de toda espécie de vida no planeta.

A última startup, a Scipopulis, é destinada a racionalizar a mobilidade urbana. Sabe-se que o transporte movido a combustível fóssil é um arquiinimigo do clima e, portanto, da espécie humana. Tudo o que se fizer para minorar esse malefício, será muito bem-vindo.

Muitas outras startups poderiam estar nesse programa, houvesse estímulo a que o alunado se dedicasse à ciência, universo que foi negligenciado numa educação obtusa, anacrônica, superada e que insiste na memorização de informações. Quando um clique é suficiente para obtê-las mais atualizadas do que em qualquer exposição oral. Enfim, há quem procure se redimir desse método e o exemplo está nessas cinco startups que estarão em Glasgow, para mostrar a inventividade brasileira.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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