‘Spinoffs’ como opção de desinvestimento

‘Spinoffs’ como opção de desinvestimento

Os potenciais e desafios desta operação ainda pouco utilizada no Brasil

Fabio T.Schmitt*

06 Fevereiro 2019 | 06h00

Fabio T.Schmitt. FOTO: DIVULGAÇÃO

Maiores lucros, melhores retornos e benefícios fiscais são algumas das vantagens dos spinoffs para empresa remanescente e a “novata” que surgiu da separação. Quando uma companhia decide segregar uma unidade de negócios ou subsidiárias, por meio da criação de uma ou mais empresas independentes, o foco dos negócios é aprimorado e permite criar estruturas de capital adequadas ou perfis de investimentos distintos que, se bem executados, geram valor para as empresas e acionistas.

Uma pesquisa da EY que entrevistou 1000 executivos de todo o mundo, incluindo o Brasil, destacou que 84% das empresas esperam executar um processo de desinvestimentos até 2020. Isso mostra que a estratégia de spinoffs é uma alternativa para ser considerada. Vale ressaltar que, no mesmo estudo do ano passado, para 85% dos entrevistados, os desinvestimentos globais são impulsionados principalmente pela posição competitiva de uma unidade de negócios em seu mercado. Além disso, as companhias estão motivadas a alienar ativos com performance comprometida que acreditam ter ficado muito tempo em portfólio, com mais da metade (56%) dos executivos admitindo que mantiveram esses ativos por mais tempo do que deveriam.

Esse movimento fica claro quando recentemente as empresas aéreas Gol e Latam anunciaram a reincorporação das suas companhias de fidelidade, Smiles e Multiplus, respectivamente. Além dos cartões Redecard que retornaram ao portfólio do Itaú e da varejista Cnova, pela Via Varejo. Todas eram spinoffs que apresentavam retornos mais positivos que as suas “matrizes” para os acionistas, mas, ao contrário do que acontece no mundo, o contexto do cenário nacional e a execução da separação, provavelmente influenciaram o recall.

Ainda diante desse panorama, o Brasil pode e deve apostar na estratégia de spinoffs, já que a previsão é de retomada do mercado de capitais e atratividade para os investidores estrangeiros, tornando o momento adequado. Claro que não existe um segredo ou uma fórmula, mas foi possível identificar no estudo, realizado a partir da análise de 124 transações globais de 2002 a 2017 – alguns caminhos que favorecem as chances de sucesso de um processo de spinoff para as empresas envolvidas.

Pode parecer óbvio, mas as companhias precisam aprender a identificar os ativos mais apropriados e o timing certo para o spinoff. Quando a separação é anunciada, as organizações devem desenvolver um calendário para completar as tarefas, definir modelo operacional da spinoff, planejar estrutura fiscal, preparar demonstrativos financeiros e identificar a participação de mercado. Nesse caso, a transparência é a melhor opção, por isso a lógica da separação deve ser claramente expressada ao mercado. Outro fator essencial é encontrar líderes para a subsidiária, conforme ressalta a avaliação da consultoria: quando os candidatos a CEO ou CFO, ou ambos, provêm da própria empresa “mãe”, a geração de retorno é maior um ano após a separação do que aqueles registrados pela matriz no mesmo período anterior à cisão. Enquanto aqueles que buscaram esses profissionais fora tiveram um retorno menor.

A gestão tende a focar em questões operacionais de curto prazo, mas o sucesso ao longo prazo de qualquer spinoff está baseado no seu crescimento como empresa independente. É o momento de estabelecer sua identidade e propósitos, planejar oportunidades de crescimento do negócio, seja por produtos novos, maiores gastos com P&D, entrada em outros mercados e consumidores, ou até mesmo aquisições.

Também há uma grande diferença entre ser uma empresa independente e atuar como uma divisão ou parte de uma empresa de grande porte, por isso, a importância do spinoff estar preparado para operar antes que a separação seja efetivada. Nesse caso, negócios em indústrias com baixa perspectiva de crescimento podem focar na gestão de caixa e racionalização de operações para reduzir custos. Já aqueles que atuam em setores mais sólidos requerem atenção do time de gestão e um modelo operacional adequado para maximizar esse potencial. Também é hora de verificar se economicamente faz sentido manter unidades em certos países e regiões.

O modelo operacional no Brasil ou em qualquer parte do mundo precisa ter como prioridade a elaboração de estratégia fiscal de curto e longo prazo. Além disso, estes movimentos podem transferir as operações de uma jurisdição com baixos tributos para outra de altos, aumentando a taxa de imposto efetiva. Consequentemente, a empresa deve compreender essas implicações fiscais de seu modelo operacional e as consequentes mudanças nele.

Um capítulo a parte que deve ser considerado como prioridade máxima é assegurar um plano de comunicação para todos os públicos de interesse que explique os motivos para o spinoff, com um calendário e a expectativa de criação de valor. A transformação deve vir de dentro, uma vez que as necessidades da companhia subsidiária são diferentes da matriz, tornando essencial estabelecer objetivos, definir metas, delegar e monitorar, além de criar incentivos para manter os profissionais que fazem a diferença.

A análise da EY encontrou relação entre o período de duração da cisão e retorno aos acionistas. Os mais bem-sucedidos levaram de 7 a 16 meses desde o anúncio até a separação das companhias. Por isso, não é errado afirmar que quanto maior a espera, a organização fica mais suscetível para possíveis eventos internos ou externos influenciarem no desempenho e sucesso do spinoff. Além disso, investidores podem perder a paciência caso a empresa leve muito tempo para ser separada. Esse é o principal dilema para um país como o Brasil que é burocrático e não incentiva o desenvolvimento das empresas, o que explica em parte porque os spinoff não estão estimulados e os poucos que realmente se concretizaram, preferiram retrair a operação, mesmo que o lucro fosse recompensador.

*Fabio T.Schmitt, sócio da EY Brasil

Mais conteúdo sobre:

Artigo