SP & OCDE: uma fresta de esperança

SP & OCDE: uma fresta de esperança

José Renato Nalini*

11 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O IEA – Instituto de Estudos Avançados da USP realizou um encontro virtual com José Angel Gurria, o mexicano que desde 2006 está à frente da OCDE – Organização para a Coordenação do Desenvolvimento Econômico e uma das mais importantes entidades mundiais.

O objetivo da OCDE é estimular as melhores políticas para uma vida melhor e a USP é alicerçada pelo lema “vencerás pela ciência”, o que mostra a convergência dos propósitos entre ambas.

Embora o Brasil não faça parte do seleto grupo de 37 países – será em breve 38, com o ingresso da Costa Rica – isso não impede que se obtenha da OCDE a expertise para áreas fundamentais e sensíveis.

O melhor de tudo é que a OCDE está aberta para parcerias subnacionais. A subnacionalidade está na mira das pessoas lúcidas e sensíveis que encaram a necessidade de contatos diretos com organismos internacionais, por parte de Estados e Municípios. No momento em que a relação federal padece por incoerências e má condução de temas de extrema relevância, como a tutela ambiental, é importante que os Estados-membros e os municípios – ambas entidades federativas – tenham autonomia para obter acordos e concretizar projetos salvíficos para o Brasil.

Isso ficou muito claro na fala de Angel Gurria, ambientalista convicto, consciente de que o maior problema planetário é a mudança climática. Sem compromissos sérios no reflorestamento, na redução da emissão de poluentes, no trato racional dos resíduos sólidos, não haverá esperança de vida digna para as gerações que vierem a nos suceder.

Por isso é animador saber que a OCDE está à disposição para apoiar projetos que levem a sério questões não só ignoradas, mas frontalmente hostilizadas pela União. A internacionalização é algo fundamental para o trato consequente de questões que atingem todo o globo e não apenas alguns países.

O Brasil já participa de inúmeras Comissões, Comitês e subgrupos da OCDE, já realiza gestões para aprimorar o PISA, o sistema de avaliação do ensino em que – lamentavelmente – estamos sempre nos últimos lugares dentre as nações avaliadas. Mas precisa ousar e pleitear mais apoio de uma OCDE que tem expertise e que pode ajudar a destravar o setor que poderia mudar o Brasil em uma geração, assim como transformou países como a Coreia do Sul e Cingapura.

A representação subnacional é muito bem vinda à OCDE, conforme expressa declaração de Angel Gurria, que estará à frente do organismo até agosto e, depois de quinze anos de regência exitosa, será substituído por outro dirigente. Amigo do Brasil, ele continuará a atuar na causa ecológica, a qual abraçou quando o tema ainda não era um artigo de primeiríssima necessidade para a continuidade da experiência existencial neste sofrido planeta.

Tudo requer urgência e seriedade. O mundo pós-pandemia tem de enfrentar a possibilidade muito provável de outras pestes, pois a humanidade é bastante vulnerável e a destruição da natureza agudiza os perigos que ela corre. Além dos milhões de mortos, houve devastação da economia, simultaneamente à destruição da biodiversidade na Amazônia, Pantanal, cerrado e Mata Atlântica. A policrise destes anos – 2020, 2021 e outros que virão – é muito mais grave do que a de 2008.

A lucidez brasileira precisa se empenhar para compensar o desastre de atuação federal que ganhou repúdio internacional na área ecológica, no relacionamento entre as nações, no alinhamento com posturas ideológicas ultrapassadas e xenófobas, além de outros entraves ao pleno desenvolvimento nacional.

Por isso é essencial se pense numa grande rede de proteção social, da qual deverá constar concreto investimento em educação. Projetos consistentes em requalificação profissional, pois a pandemia mostrou que o home office veio para ficar e há milhões de jovens desprovidos de preparo suficiente ao enfrentamento de desafios postos pela Quarta Revolução Industrial. A sustentabilidade é palavra de ordem que precisa habitar todas as consciências, a começar pelo reflorestamento das áreas devastadas. Não é apenas acabar com o desmatamento. É preciso repor, com urgência, o verde exterminado pela ganância e pela ignorância conjugadas.

O IEA – Instituto de Estudos Avançados é a porta de entrada para a OCDE e São Paulo, tanto o Estado líder da Federação, como seus municípios, têm excelente oportunidade de se contrapor aos estragos e recuperar o verdadeiro desenvolvimento, mediante projetos factíveis que podem ser apoiados e merecer sofisticada elaboração por parte de quem possui comprovada experiência em melhorar o mundo.

A representação subnacional é bem vinda junto à OCDE e São Paulo tem todas as condições de liderar um movimento do qual o Brasil sairá recomposto e com evidentes ganhos na reputação e no verdadeiro progresso.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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